Dolce Vita
:: 30 de julho, 2005 ::
NOVEMBRO

Do que não se sabe

Sem medo, sabe? Você não sabe ainda, mas um dia vai saber.
O medo fica ali petrificado pra quem não olha fixo pra ele, pra quem não consegue chegar perto pra entender suas formas, suas cores.
Ele é enquanto desconhecido; ele está, e depois voa, quando olhado no olho. O olho verde do medo, tão verde que dói.
É igual à mariposa-monstro que estava na porta do armário. Ficou lá enquanto eu fechava a porta do quarto e deixava ela dormir sozinha - eu dormindo no quarto ao lado.Ficou lá. Um dia, dois dias, três, quatro, quatro e meio. Sem se mexer, sem piscar.
Até que eu finalmente cheguei perto. Olhei bem a mariposa-monstro e seus olhos tão verdes, e ela nem era mais monstro. Era uma pequena fada preta que tinha pousado ali pra me ensinar alguma coisa.
Foi quando ela sorriu (acho). E foi embora, de uma voada só.

Olha só

Talvez ninguém, nunca, vá entender o pocotó do meu peito. Aquele pocotó que se exacerba raivoso, por exemplo, quando a bolacha do chope gruda no copo, ou quando a porta giratória trava, ou quando o garçom diz "hein?". Ou então quando eu quero você de todo meu corpo, ou quando quero cantar muito e alto, ou quando sim, eu ouço o tumtum aqui n´alma.
Talvez não, beibe. Como acho que nunca. Mas talvez também isso não seja impedimento para eu me apaixonar de jeito louco de novo, talvez isso não me impeça de ter cabelos bicolores, botas de meninos, saias no meio das coxas, amor pela minha filha, vontade de viver tudo nesse momento.
Talvez não. E o amor bate à porta. Licença, vou abrir.

A felicidade

Sabe, a felicidade geralmente está nas mínimas coisas.Na respiração, na temperatura do corpo, às vezes na risada que parece uma risada sísmica, uma risada de vulcão.E eu fico mais feliz por ter visto a felicidade nestes olhos e fico mais feliz por ter tomado um gole dela.E fico mais feliz por ter sentido um pouco do cheiro e compartilhado da sinceridade que vem dali de dentro, sabe - e sinceridade esta que é parte integrante e insubstituível da tua (da minha) felicidade.O especial reside aí. Você sabe.






OUTUBRO

Paisagem Histérica

Palavras não me saem, hoje.Situação inconcebível, olha só pra mim, estou muda.
Logo eu. Muda.
Flores severas que se alçam e dão-se a cheirar. Espinhos.
Apenas espinhos é o que são. Nada.
E toda a música do mundo que se cala em letras tristes
E o tempo-espera que se desespera no tiquetaque dos relógios - todos quebrados.
Calo, deito mas não durmo - sonhos são, eles mesmos, verbais demais.Não quero verbos, frases, vozes. Quero a fragrância de algo que não fale
Que não diga, que não cante. Plantas silenciosas que estejam lá, e lá fiquem.
Coisas-pedras, solidez, uma rochura
Cinzenta que não amanheça todos os dias como as cores berrantes
Que amanhecem e berram e amanhecem e berram.
E é tudo uma manhã constante, um ensurdecer ensolarado que me dói
Olhos e ouvidos.
Quero uma paisagem lenta e simples como o cheiro da minha filha.

Requintes

Hoje o dia foi um pouco mais longo do que o normal e bem mais cruel também. São reeves e sabinos que desabam e tetos de crueldade um pouco mais anônimos que caem sobre a minha cabeça, assim, sem barulho mas com uma força ensurdecedora. Um dia assim não precisa nem ter começo, mas parece que não tem fim, e vem, e palavras cruéis e idiotas e tão tão tão prepotentes que emudecem qualquer tentativa de conciliação - não seria entendida, anyway. E você olha nos olhos da pessoa que se sente tão maior e vê que de grande ali não tem nada. E tenta escutar e entender, mas entender o quê, se não se diz coisa com coisa? De burrice basta o mundo, mas não, a mãe de todas as burrices está ali, jogando insanidades para dentro dos teus ouvidos do outro lado da mesa. E você tem vontade de correr ou de esmurrar, o que vier primeiro, mas a burrice te empedra feito um poder mitológico e você não faz nem uma coisa nem outra. Talvez até babe de tamanho desespero - e o bicho de sete cabeças burras do outro lado da mesa vai achar que é desejo, ou submissão, ou admiração. E é desespero em baba pura e você não pode fazer nada mais do que babar e desejar que o dia acabe logo. Mas o dia não acaba, a noite apenas começa, e é preciso dormir.
Com um barulho destes.

Deserto

"Sempre quis conhecer um deserto", ela disse. E lá estava ela, aquele sol absoluto queimando sua testa, sua boca, suas têmporas.
E eles diziam "Mas tem água, mas tem água", ao que ela respondia
"Não sejam tolos, é um deserto. A água fui eu quem trouxe".
Sente só. A terra quente por sob os teus pés.
Sente o cheiro da terra queimada, gritando por água. Ouve.
Não dá medo. É bom.
E é muito lindo, mais lindo do que qualquer coisa jamais vista - por ti ou por mim. Por nós.
Parece até real, de tão sonho que é.
De tão sonho que é.






:: 29 de julho, 2005 ::
SETEMBRO

Saber ■ verbo transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo 1 conhecer, ser ou estar informado; ter conhecimento de 2 ter gosto de, lembrar o sabor de; ter sabor, ser sápido

Eu não me sei.Das coisas que sei, essa é uma delas.Nunca me soube, aliás.
Julgava saber, mas fato é que
Eu não me sei.
As coisas que me vêm também não me sabem -
Ou então não me viriam.
Porque chegam e eu as amalgamo, imediatamente,
Ou então as mastigo e cuspo, sem olhar para trás.
As coisas que me vêm, certamente,
Não me sabem.
E minha solução é este mistério de olhar pra frente, sempre,
Esperando algo que saiba a água, a muita água e muita pedra
Algo que saiba a mim.
Algo que saiba
- estritamente -
a mim.

tanto mar, tanto mar

Tanto mar que os olhos ainda enchem d´água. Porque nos sonhos sonhados à noite as perguntas ainda existem, e são tão claras as respostas.Mas nos sonhos vividos de dia já está tudo resolvido. A resposta é sempre não.O valor dos dois tipos de sonhos pra mim é igual, ou quase. Tendo a valorizar o primeiro, em detrimento da fugaz realidade do segundo. O primeiro pra mim é mais perene, é mais real. É mais constante.Porque acredito, sim. Eu acredito no sim. Mas hoje só é possível acreditar no sim enquanto durmo, enquanto sonho.*O que me resta agora além de navegar, navegar?

Emptiness

Estar vazia não é ser vazia; pelo contrário. Pessoas vazias geralmente estão com a vida tão cheia de coisas e gentes e medos e alegrias e tudo, para não terem que se olhar no espelho, para não terem que se sentir. Estou vazia sim, mas não o sou. Não sou completa, entretanto, e acho que nunca o serei. Estou vazia porque nunca estive, e então resolvi estar. Fui deixando as coisas pra trás, o guarda-chuva pendurado na escada do shopping Villa Lobos foi apenas o começo. Depois, fui largando os olhares aqui, deixando os "eles" ali, soltando as mãos.Caminho agora ainda meio trôpega, ainda um pouco sôfrega, ainda não muito sólida.Mas caminho. Caminho sozinha, caminho vazia.Estou vazia, me desafiando, me confrontando. Para poder não ser vazia nunca mais.






:: 28 de julho, 2005 ::
AGOSTO?

The Film

Revelo
Agora todas as minhas vontades, aqui na tua mão, olha, as minhas vontades, sob os teus olhos,
Desenovelo
Esse filme que sou eu, essa imagem P&B
-que sou eu-
E aqui na minha mão, olho, olho as tuas vontades, com os meus olhos, e elas são banhadas por todo o meu
Desvelo
E o tempo que nada revela e as coisas que estão além e mãos brancas e nuas e olhos fechados e olhos fechados e olhos fechados e olhos fechados.
Relevo.

Chiara

Ainda lembro, e sempre vou lembrar, de quando você nasceu. Eu toda amarrada, ali, colocaram você do meu lado, sobre meu ombro. Eu não podia colocar minha mão em você, porque minha mão estava presa na maca, então eu te lambi. É, eu te lambi, como a loba faz com o filho, eu lambi você e você abriu os olhos imensos que você tem desde bebê. Abriu os olhinhos e me olhou. Você despertou pra vida, filha, com uma lambida.E foi assim que tudo começou, que você virou meu mundo do avesso. Que você, contrariando tudo o que a gente ouve, começou a me ensinar. Sou sua aluna, todo dia, nessa escola que é ser mãe. Dei meus primeiros passos sob a tua batuta de filha, vou aprendendo, dia a dia, a ser um pouco melhor, por você e pra você.Sua destreza com as palavras, os jogos de sentidos, você herdou da sua mãe. Seus olhos grandes, seus pezinhos firmes, são iguais aos do seu pai. O seu carinho pelo mundo e por tudo o que vive é seu, todo seu, e sempre vai ser só seu. Seu olhar tinge todas as coisas de cores belas e simples, e isso espanta quem está em volta. Já me disseram uma vez, "Chiara é alma". E eu concordo, 100%. E digo mais: Chiara é Cuore. 100%.Te amo, Filha. Vai pra vida, que ela taí, de braços abertos, esperando você. E todas as suas cores.

Nada de novo

Acho que sim, acho que vou reconhecer você quando cruzar a minha estrada. Acho que até sei que vai ser um dia nublado, assim, meio escuro, com aquele cheiro de chuva recém-caída, e eu vou estar ali, talvez comendo uma maçã, sentada numa pedra quente, olhando as nuvens pretas, do lado de uma piscina formada por uma cascata ali perto. Minha mochila, entreaberta, do meu lado direito, com meus cacarecos, meus óculos, um ou dois isqueiros, creme de girassol pros cabelos, um livro de poemas e um caderno de anotações. E você vai chegar e me perguntar as horas, e eu não vou saber porque meu relógio vai estar quebrado como sempre, e eu vou rir disso e você não vai entender.
E quando eu te olhar eu vou ver uma sombra sob seus olhos e vou achar que é da nuvem, mas depois vou ver que são os teus cílios que abanam tuas pupilas pretas e grandes que é o que faz sombra sob teus olhos. E tua boca que não vai parar de falar vai me mostrar uma grande fileira de dentes fortes e não tão claros, talvez os dentes incisivos mais marcados, e isso vai me chamar a atenção.
E quando você passar a mão nos cabelos compridos e escuros, na primeira risada que der, aí vou ter certeza que o reconheci e vou sentir felicidade, talvez mergulhar na água doce do meu lado, para comemorar do jeito certo esse encontro. E vai começar a chover e vai ter fogos de artifício como no encerramento da Olimpíada, como um final de uma coisa que também é o começo e a comemoração.
E nada disso vai ser novo, ainda, nunca mais nada vai ser novo aqui dentro de mim, porque tudo vai ser uma repetição de tudo, uma oitava acima, sempre, mas uma coisa da qual já sei o gosto e o nome e o cheiro.
E, lógico, tudo isso já aconteceu. Eu não estava, talvez. Mas sei que aconteceu.

palavras, mentiras

E as palavras cuspidas já foram todas embora, todas tortas de sentido, pesadas de significado, não-descobertas, nunca, foram pra lá, travestidas sob o manto da pureza, pregando a verdade reverberante por aquelas estradas desgraçadas de tão vermelhas, e lá vão elas, imponentes, as palavras e as meia-palavras também, por meio de uma chuva de escárnios e escarros e pontapés de pessoas que não ouvem nada, que não enxergam nada - que não dizem palavra. Que amam.*E que são inteiras por isso.


sobre a chuva

E a tempestade veio. E emprestou o cheiro e os tons que azularam as paredes e os olhos e os bichos todos. E com ela o gosto que amarra a língua e trava pernas e reconhece, o gosto que reconhece e encontra e esmurra as barreiras e os déjà-vus. Haha, olha só. Os conceitos, todos, pelo chão.*E sabe que na volta pra casa, depois de toda a tempestade, naquela rua, sabe aquela?, aquela pela qual eu passo umas oito vezes por dia, então, naquela rua eu vi tanta coisa nova, tanta coisa que já existe lá há muito mais tempo do que eu mesma existo no mundo, tanta coisa que eu nunca vi. *Vi um lugar de pedra, de dois andares, todo pichado, com um luminoso vermelho piscante onde se lê "Bailes", e não se vê o nome porque o luminoso não acende ali. O lugar que entrega a função mas nunca entregará seu nome, olha só, e paro o carro pra enxugar uma lagriminha que teima em me obstruir a visão, e penso, esse lugar podia ser eu, olhe bem, esse lugar sou eu.*Sou uma mulher-lugar que por fora é de pedra, tenho coisas escritas na pele também, mas tenho bailes inteiros periodicamente ocorrendo dentro de mim, e você pergunta meu nome... aqui, veja só, eu estou com meu néon vermelho piscando tumtum, tumtum; receba minha função já definida, e meu nome a combinar. *Diz meu nome. Diz meu nome agora, antes do baile terminar.

quinta fase

Voltando pra casa, hoje, lá estava ela. Assim mesmo, branca branca, bianca neve, boiando lá naquele mar escuro, acima de todos os carros que corriam como o meu, acima de todas as cabeças que voavam como a minha. Ela, soberana, serena, rindo de mim e de todos os outros angustiados dessa terra.*E foi então que eu entendi. E soltei o ar, e fiquei lívida eu também, e sorri pra ela.Que não é crescente, que não é minguante, que não é cheia, que não é nascente.
Minha lua sorrinte.


por entre as coisas

Ela tá ali, escondida embaixo da mesa nas aulas de alemão, do olhar maternal e doce da professora húngara, no meio das frases Ich esse Brot, Ich spreche mit meinem Vater, ela me olha. Ela sai de dentro do porta-luvas do carro, enquanto dirijo pelas ruas de Pinheiros, procurando um sinal em forma de cheiro de jasmim que me anuncie que a primavera está chegando.Ela está dentro dos livros sobre Winnicott e Jung que traduzo, ali, no meio das linhas, olha os olhos dela lá, vê?Ela está ali. Nos tijolos da parede, na poltrona preta, no cheiro da cama.Ela - a vontade que tenho de me apaixonar de novo, de sentir meu coração tumtum, de sentir meu peito pocotó. E se é ou não é factível ou provável, isso agora pouco me interessa. A vontade por si mesma agora se basta, agora. Este é o melhor sinal de que estou emocionalmente inteira. Não suportaria agora viver em meio a desconfianças e medos e silêncios - porque essa não seria eu, como nunca fui. Como, espero, nunca serei.

Eu.

Quem só me olha não pode me imaginar. Não consegue, nunca, me decifrar. Passo imagens erradas pras pessoas o tempo todo. Meu rosto tem traços fortes, sou bem alta. Ao mesmo tempo, estou sempre rindo muito forte e muito alto, meu olhar não se concentra em nada e em ninguém. Sou teimosa à beça, e geralmente uso a frase "é assim, sempre foi assim" para justificar qualquer opinião minha e acabar com a discussão.*Mas quem conversa comigo por mais de cinco minutos já percebe que não sou nada disso. Sou sensível e chorona, rio à toa porque sou boba, sou intensa e quero acabar logo com a discussão geralmente porque quero um abraço. Movo mundos para ficar com quem amo, e nunca percebo mensagens subliminares da outra pessoa - só entendo coisas literais e claras na comunicação verbal. Meus poemas, porém, são meu mundo de fantasias e lá eu posso brincar de metáforas e metonímias, de mim mesma e de eu-outra.*Isso tudo só pra dizer que, dentro dessas constantes e imensas botas pretas e por trás desses cachecóis laranjas e vermelhos, sou uma menina que gosta de palavras, churrasco, beijo na boca, cheiro do outro, cinema, cavalos e água doce. Meu corpo está aqui e meu pensamento, alhures. Tenho jeito de criança mas gosto de falar a sério, sou muito nova e muito velha, e somando as duas idades e dividindo por dois não dá minha idade real. Na verdade, eu mesma não sei a minha idade e ainda estou tentando descobrir meu nome. *Tudo é tão simples quanto pode ser. Dizer o que se sente. Correr riscos. Gostar à beça ou jogar tudo pro alto. Fácil, simples, singelo e forte. É assim que eu quero viver.

arrastando os móveis

Desperto.Desperto ou adormeço, caio no sono, no sonho, no poço?No poço dos "possos", dos "queros", dos "vamos"?Abrir o olho devagarzinho, pra esse sol desacostumado não se espantar comigoDe novo, aqui, invadindo essa cenaDe vontade e desejo e carinho, levantar pouc






:: 27 de julho, 2005 ::
AGOSTO

palavras, mentiras

E as palavras cuspidas já foram todas embora, todas tortas de sentido, pesadas de significado, não-descobertas, nunca, foram pra lá, travestidas sob o manto da pureza, pregando a verdade reverberante por aquelas estradas desgraçadas de tão vermelhas, e lá vão elas, imponentes, as palavras e as meia-palavras também, por meio de uma chuva de escárnios e escarros e pontapés de pessoas que não ouvem nada, que não enxergam nada - que não dizem palavra. Que amam.*E que são inteiras por isso.
sobre a chuva

E a tempestade veio. E emprestou o cheiro e os tons que azularam as paredes e os olhos e os bichos todos. E com ela o gosto que amarra a língua e trava pernas e reconhece, o gosto que reconhece e encontra e esmurra as barreiras e os déjà-vus. Haha, olha só. Os conceitos, todos, pelo chão.*E sabe que na volta pra casa, depois de toda a tempestade, naquela rua, sabe aquela?, aquela pela qual eu passo umas oito vezes por dia, então, naquela rua eu vi tanta coisa nova, tanta coisa que já existe lá há muito mais tempo do que eu mesma existo no mundo, tanta coisa que eu nunca vi. *Vi um lugar de pedra, de dois andares, todo pichado, com um luminoso vermelho piscante onde se lê "Bailes", e não se vê o nome porque o luminoso não acende ali. O lugar que entrega a função mas nunca entregará seu nome, olha só, e paro o carro pra enxugar uma lagriminha que teima em me obstruir a visão, e penso, esse lugar podia ser eu, olhe bem, esse lugar sou eu.*Sou uma mulher-lugar que por fora é de pedra, tenho coisas escritas na pele também, mas tenho bailes inteiros periodicamente ocorrendo dentro de mim, e você pergunta meu nome... aqui, veja só, eu estou com meu néon vermelho piscando tumtum, tumtum; receba minha função já definida, e meu nome a combinar. *Diz meu nome. Diz meu nome agora, antes do baile terminar.

quinta fase

Voltando pra casa, hoje, lá estava ela. Assim mesmo, branca branca, bianca neve, boiando lá naquele mar escuro, acima de todos os carros que corriam como o meu, acima de todas as cabeças que voavam como a minha. Ela, soberana, serena, rindo de mim e de todos os outros angustiados dessa terra.*E foi então que eu entendi. E soltei o ar, e fiquei lívida eu também, e sorri pra ela.Que não é crescente, que não é minguante, que não é cheia, que não é nascente.
Minha lua sorrinte.


por entre as coisas
Ela tá ali, escondida embaixo da mesa nas aulas de alemão, do olhar maternal e doce da professora húngara, no meio das frases Ich esse Brot, Ich spreche mit meinem Vater, ela me olha. Ela sai de dentro do porta-luvas do carro, enquanto dirijo pelas ruas de Pinheiros, procurando um sinal em forma de cheiro de jasmim que me anuncie que a primavera está chegando.Ela está dentro dos livros sobre Winnicott e Jung que traduzo, ali, no meio das linhas, olha os olhos dela lá, vê?Ela está ali. Nos tijolos da parede, na poltrona preta, no cheiro da cama.Ela - a vontade que tenho de me apaixonar de novo, de sentir meu coração tumtum, de sentir meu peito pocotó. E se é ou não é factível ou provável, isso agora pouco me interessa. A vontade por si mesma agora se basta, agora. Este é o melhor sinal de que estou emocionalmente inteira. Não suportaria agora viver em meio a desconfianças e medos e silêncios - porque essa não seria eu, como nunca fui. Como, espero, nunca serei.

Eu.

Quem só me olha não pode me imaginar. Não consegue, nunca, me decifrar. Passo imagens erradas pras pessoas o tempo todo. Meu rosto tem traços fortes, sou bem alta. Ao mesmo tempo, estou sempre rindo muito forte e muito alto, meu olhar não se concentra em nada e em ninguém. Sou teimosa à beça, e geralmente uso a frase "é assim, sempre foi assim" para justificar qualquer opinião minha e acabar com a discussão.*Mas quem conversa comigo por mais de cinco minutos já percebe que não sou nada disso. Sou sensível e chorona, rio à toa porque sou boba, sou intensa e quero acabar logo com a discussão geralmente porque quero um abraço. Movo mundos para ficar com quem amo, e nunca percebo mensagens subliminares da outra pessoa - só entendo coisas literais e claras na comunicação verbal. Meus poemas, porém, são meu mundo de fantasias e lá eu posso brincar de metáforas e metonímias, de mim mesma e de eu-outra.*Isso tudo só pra dizer que, dentro dessas constantes e imensas botas pretas e por trás desses cachecóis laranjas e vermelhos, sou uma menina que gosta de palavras, churrasco, beijo na boca, cheiro do outro, cinema, cavalos e água doce. Meu corpo está aqui e meu pensamento, alhures. Tenho jeito de criança mas gosto de falar a sério, sou muito nova e muito velha, e somando as duas idades e dividindo por dois não dá minha idade real. Na verdade, eu mesma não sei a minha idade e ainda estou tentando descobrir meu nome. *Tudo é tão simples quanto pode ser. Dizer o que se sente. Correr riscos. Gostar à beça ou jogar tudo pro alto. Fácil, simples, singelo e forte. É assim que eu quero viver.

arrastando os móveis

Desperto.Desperto ou adormeço, caio no sono, no sonho, no poço?No poço dos "possos", dos "queros", dos "vamos"?Abrir o olho devagarzinho, pra esse sol desacostumado não se espantar comigoDe novo, aqui, invadindo essa cenaDe vontade e desejo e carinho, levantar pouco a pouco essa colchaDe conversa e de procura e de esperaPra poder te ver. De novo.De perto.

24 horas ou um pouco mais

Espreguiça. Acorda, acorda. Outra dormidinha, uns 10 minutos, acorda de novo. Sobe 15 degraus, comida pros cachorros, água. Bronca não, hoje não, ainda cambaleio. Muita febre, sabe? Muita coisa aqui. Emails. Nada que preste, nada que eu espere com muita vontade, arquivos de pps com mensagens idiotas que me fazem ter vontade de esmurrar o computador. Respira. Tosse. Febre. Água. Pra mim, agora. Desce 15 degraus.Filmes, filmes. Um com a Gwyneth Chata Paltrow, puxa vida, por que fazer isso com o Ted Hughes, ele merecia um filme só dele. Ted Hughes, casado comigo, é, podia dar certo, se ele não estivesse morto, se eu não estivesse... ah, viva? É, acho que sim, viva, eu, haha, enfim, Ted Hughes sim, esse sim, meu Ted. Eu já tive um ursinho chamado Ted também, de olho vermelho, um só, o outro tinha sumido, mas ah, não é do ursinho que falamos, é do Leão Hughes, é do maior poeta do mundo, aquele mesmo, que acabou num filme com a chata-paltrow, mimimi, ela fala, ele ri. Ela chora, ele vai. Ela se mata. Acaba o filme, enfim, outro filme, três histórias, fico esperando onde é que elas se encontram, elas não se encontram nunca, ah, que coisa, outro filme, por favor, espera um pouco, faço pipoca, muita manteiga, muuuuuuuuita manteiga, tchau, Atkins, vai pra lá um pouco que a gente não cabe aqui, todo mundo junto. Obrigada. Edward Norton aqui na sala, junto comigo, a cena do espelho, QUE CENA!, caramba, choro muito, ele xingando os nova-iorquinos, os americanos, as mulheres, a família, o Bin Laden, ele mesmo, e eu choro, isso mesmo, é isso mesmo, xinga mesmo, sente raiva, te salva, cara, é assim que se (sobre)vive. Haha. E o espelho diz pra ele "Fuck YOU!", e ele sabe que é com ele, e eu digo, viu só, é isso, FUCK YOU, pra largar de ser tonta, pra largar de ser assim, e choro mais, mas o filme depois acaba e eu empapada de choro e de suor e de febre e nem sei mais onde é que começa o quê. Mas sei que tudo acaba ali, no botão STOP e no travesseiro da minha filha que tá com o perfume dela e outros cheiros também, não vou pensar nisso agora, pelo amor de Deus, FUCK YOU! FUCK THE SMELL, sobe 15 degraus, que frio do cão tá aqui em cima, pega os cachorros, desce 15 degraus, vamos dormir no edredom, você aqui, você pra lá, boa noite pra você também. E já é dia seguinte, nem pisquei ainda, puxa vida, é deitando que amanhece, e olha só, já no carro, voltando pra casa, abro a Folha de S. Paulo e vejo que já existem asilos-spas, com hidromassagem e serviço médico 24h, e penso, que bom, já tenho pra onde ir um dia, naquele dia, em que eu ficar velhinha, e nada vai ser como eu achava que ia ser, porque está claro que nunca mais vai ter aquele prasempremente, e olha só, olha as velhinhas, pra jogar baralho (eu preciso aprender jogos de cartas, preciso, é urgente), pra nadar na piscina, pra rir à beça das piadas sujas que eu nem sei contar direito, mas não interessa, estaremos caducas, e me vejo pensando isso, e penso "estou fodida", paro o carro na guia e choro como um bebê, FUCK YOU, FUCK IT ALL, falo bem baixinho, é melhor eu anotar tudo isso e contar pro meu analista, porque minha mente anda me dando uns capotes ultimamente e não me deixa lembrar de nada mais, nada que eu precise lembrar. *Resolvo afastar todas as lembranças e cheiros e imagens que me vêm à mente, ligando o rádio do carro. Que rádio? O carro ainda não tem rádio, essa é uma das coisas que eu sempre esqueço e só lembro quando a mão bate no painel preto e liso. E o espaço desse post devia conter coisas engraçadas e criativas, hoje, uma bela história, um texto bem-escrito, mas hoje não deu, hoje não dá, as coisas são assim, sabe? 24 horas de uma vida não é nada, amanhã talvez música, amanhã talvez cheiros, amanhã talvez um filme que me faça rir.Que me faça rir.

o barulho das águas

Aqui, no último andar, tem os barulhos. Tem os barulhos da casa das máquinas, aqueles que me assustam e aos meus cachorros, de madrugada, quando eu sempre sonho que estou num metrô a céu aberto e faz aquele barulho tatchammmm, e os cachorros latem e eu abro os olhos e vejo meus tijolos e demoro um pouco a entender que saí do sonho e que foi só o elevador que chegou em algum lugar - longe de mim.E tem o barulho das águas, que eu não sei o que é. Aqui do lado dos tijolos, o barulho das ondas do mar. Não quero saber ou entender o que é isso, desse sonho não acordo ainda. Imagino que ali, do lado de lá dos tijolos, os peixes vão pra lá e pra cá, batendo nos cascos de navios, lambendo limos, soltando bolhas. Sem amor, mas com os peixes, talvez por enquanto eu durma mais tranquila. Sobre os trilhos do metrô.

decor

É, eu virei do avesso.Porque foi um co(r)po que já estava quase vazio e já não está mais. Mas vai estar de novo, porque eu me estudo, sabe? Eu me estudo e eu me aprendo.E agora a matéria está cada dia mais fácil.*Só que ainda não me sei decor.






:: 26 de julho, 2005 ::
JULHO

proposta


Olha só. A questão é como um envelope em branco, agora, sabe? Estou colocando o envelope dentro da garrafa, eu, náufraga, a ilha aqui, debaixo dos meus pés, a areia quente que me amarela os ossos. E jogo a garrafa na primeira espuma de onda que vem me cheirar, farejar, reconhecer, cachorro-pastor de água, cachorro-pastor que me guarda, vai, leva, leva, leva pra pessoa certa, leva que te dou carinho.
E tenho esperança de que o envelope em branco vai chegar às tuas mãos, vai chegar, você ali, na outra praia, do outro lado, num barco, rindo e tomando sol, ouvindo música alto e olhando as pernas que passam. Mas você vai olhar a garrafa e as iniciais do seu nome vão estar lá, escritas em vermelho, como estão já aqui dentro do meu peito, a pata do bicho em alto relevo, aqui dentro, na garrafa, meia de mim, ali. Em água e sal.
Você sabe meu nome. Você até sabe falar meu sobrenome.Ainda lembra do endereço?Sobe no perdigueiro do mar, no perdigueiro que me caça, e vem, vem logo.Porque aqui não tem sombra de dia. E a noite não existe. Não existe.

AH


Ah e por favor pare de dizer que me entende se não entende.Pare de dizer que quer se não quer, não diga que não quer se quer.Seja simples, seja sincero - porque eu NÂO ENTENDO nada que não seja estritamente o que é dito, e se eu passei essa impressão tantos anos atrás foi errado, ou menti, ou era outra.Ou todas estas opções - e não são? Não é tudo igual?Então solta esse teu cavalo que eu sei que você tem e me ouve e me escuta e me perdoa e acredita em mim de novo - haha, será? - porque era isso e é isso e sempre vai ser isso e a gente sabe.*Tá, você nem existe. Esse texto é pra ninguém.

troca de bichos


Porque os cavalos que estavam aqui pocotó foram enxotados por estes gatos imensos que arranham o peito por dentro. E sangro e tusso e dôo, e não enxoto os gatos porque os ratos mortos ali de dentro lhes são atraentes. Porque eu queria escrever coisas engraçadas mas não dá. Dá mas não quero, agora, porque não sou. Não sou coisas engraçadas agora, não serei por algum tempo.Porque quero ir pra Santorini conhecer o vulcão. Ir pra lá e só falar boa noite depois das 23h e nadar no mar escuro e frio. Mar, olha só, eu, eu querendo mar, que me deu tanto medo sempre. Eu querendo o Oceano. Eu querendo me afogar no Oceano porque ele me conhece. Porque sempre me conheceu, eu, o Vulcão, eu, só eu, pequena eu que preciso mergulhar em dois braços compridos e macios e ficar ali pra sempre, viver ali pra sempre, viver ali, viver.Só viver, era isso, era isso que eu quis e fui pro lugar errado uma vez, voltei seguindo a trilha das pedrinhas e a porta se fechou. Ah, não mora mais aqui; mora mas está na praia; mora mas não tem mais esse nome; mora mas casou.E eu, ali, vestida de chapeuzinho vermelho, voltando com a cesta vazia, dormi na soleira da porta.*E tudo isso não serve de nada, não é? Não serve de nada - são os livros que tenho de traduzir, a coca light que tenho pra beber. E o dia seguinte que tenho que acordar. Eu acordo o dia, entende? Ah, talvez entenda.Acho que sim.

futuro


(post sem acentos - meu teclado quebrou)
Nao me sinto mais apta a falar de voce, meu futuro,Porque nao te vejo e nao te sinto e nao te sei.Futuro que escorre em alguma parede que nao e minhaFuturo que explode bombas cujo veneno nao conheco.E isso nao e bom e nem e ruim.Mas e bom e ruim ao mesmo tempo.Porque sei que nao quero mais nada que me doaQuero tudo a que me doe, quero tudo que se doe,Tambem
E sem me doer e em me doar imagino-me mais euNao que nao o seja, hoje, talvez sendo,Mas vislumbrando um mais-eu que cintile e que sorriaE que tenha um suspiro guardado para despejarSobre maos que protejam e acarinhemIluminadas por olhos que brilhem de desejoE de ternura, a cada passo que dermos,Amem.
Meu futuro eu nao sei bem se existe.Eu ja existo pra ele, e isso e o que importa.

sobre


Um cansaço imenso. Parece que carreguei três elefantes roxos até o circo, nas costas, e voltei com elefoas brancas.Sério. Luto e luta, luto e luta, luto e luta, essa é a minha montanha-russa agora.*É uma dor física, até, aquela dor pós-academia, fora a cabeça que lateja e os olhos que arroxeiam. Mas é isso, e em meio a isso tudo tem muito trabalho, tem horizontes no palco lá na frente - fechados, ainda, mas alguém ainda puxa a cordinha da cortina, lá da coxia, pra mim. Ah, se puxa.*Tropeço, manco, até arrasto. Mas cair, isso não mais.Já conheço bem o chão. Ele é frio demais pra mim.

descasca...


E minha pele, agora, que queima, aqui, bem na bochecha esquerda. Arde, está áspera, tal uma queimadura, mesmo.*Não sei se desenvolvi uma certa alergia ao meu próprio choro. Estou perto de concluir isso. *Mas, de qualquer forma, é uma das coisas mais estranhas que já vi.

à beça


À beça. Sabe? À beça.Não tenho cabelo roxo, mas vivo à beça.I´ve loved you for a long long timeAnd there ain´t no cure for love.I´m aching for you babeAnd I cannot pretend I´m not.
Vivo à beça. E sabe, quando eu acordo eu penso, "wow, ainda respiro".E isso, creia, é uma puta de uma vitória.

Oggi in Poi


Não sou vítima de nada. Muito menos mártir.Não sei tudo o que quero, mas sei o que não quero.Profundamente.Meu livro caminhando, eu caminhando, a vida atropelando,mas é assim mesmo.O catálogo da minha vida não está escrito, mas está esperando para que eu escreva. Sabe? Não, você não sabe.Mas tem muita gente que sabe, e passa pela minha vida. Alguns até ficam. Não amalgamam como eu amalgamo, porque sou Pietra, lembra? Ah, eu lembro porque a condição está impregnada e guia.Guia mas pode ser desviada, às vezes, e a gente finge, e a gente ri, e às vezes a gente goza.Por tudo, de tudo.Minha memória não me trai, minha pele me acompanha.Mas eu amo e amo e amo.E isso nunca, ninguém, em nenhum lugar, vai tirar de mim.Há.






:: 25 de julho, 2005 ::
JUNHO

triz

Por um triz. Entende? Você me entende? Tudo por um triz.
Foi por um triz. E não sei se as coisas são assim ou é porque eu gosto da palavra. Por um triz. TRIZ. TRIZZZZZ.
Não, tudo foi assim. Tudo é assim nesse exato momento. Mas eu finjo que meu amor é pela palavra.
Por um triz.
By a trix.
Für einen trichen.
Per un trisso.
*
Finjo que amo tanto essas palavras que invento. E vocês acreditam,
Obrigada.






:: 24 de julho, 2005 ::
MAIO

você sabe

E só você sabe que algo acontece
Quando um poema sai mais fácil do que um texto qualquer
Quando você daria um braço por um beijo
E nem sabe mais seu nome
*
Ou melhor: quando você percebe que nunca soube seu nome,
porque as pessoas chamam e você não olha.
*
Quando nem o espelho responde
Quando nem o espelho existe.

mordendo minhas mãos...

...e ouvindo estrelas, algumas. Algumas ainda falam comigo, lembranças de alguns anos antes, quando todas me falavam e me ouviam. Algumas ainda se comunicam, via de mão única, não me ouvem mais.
Minhas mãos cada dia mais marcadas. Cada dia mais vontade, vontade de te contar o que sonhei, com quem sonhei, por que sonhei. Mesmo que eu não saiba, mesmo que eu não lembre. Mesmo que eu me invente.
Porque eu posso me inventar também, assim como posso me desinventar. Mas não quero, acho. Agora não.
Só quero que você me olhe e me veja como alguém (des)inventante, (des)diletante, (des)interessante, que por ser des, pode se dar agora, pode se dar. Agora.
Agora.
Vem.

versim de pé quebrado ;-)

Então, eu aqui, com estrelas e afins
Nesse frio que não cabe no bolso
Com mensagens e-mails telefonemas quentes
E amigos. E amoigos. E amigos.
*
Coração que dispara vez em quando
Mas me falta coro, como já disse antes
E vale a pena? Acho que sim, claro que é
A pena do cocar do Índio Azul.

cracking

Uma cachoeira com piscinas naturais, algumas flores amarelas, pessoas simples que digam bom-dia, boa-tarde, boa-noite. É isso, é disso que preciso nesse exato momento e esse vai ser meu presente de aniversário.
*
Vou ser um pontinho na noite escura, lá no meio do Brasil, com pedras por testemunha. Pedras são as melhores testemunhas pra tudo. E o mar que bate, e que bate, e que bate insistentemente, esse eu deixo ficar um pouco. Mas um pouco apenas, porque não quero mais muita coisa, agora. Não é o tempo nem o caso.
Experimentando uma nova forma de sentir. Descobrindo que quanto mais dentro ficar, mais me fortalece. Ninguém sabe, ninguém vai saber - e quando digo ninguém, é ninguém mesmo, nem as paredes laranja, nem os tijolinhos. Ninguém, palavra que estou conhecendo há uns dias, no sentido original.
Eu me abraço vez ou outra, meus sonhos estão cada noite mais claros, e o crec-crec, como disse meu amigo, é das casquinhas caindo.
*
Bom dia, mundo. Levantemos, hoje tem teatro.
Só não tem marmelada. Isso tem não, não senhor.






:: 23 de julho, 2005 ::
ABRIL

shhh

Você escuta esse silêncio todo?
Qual o gosto que ele tem aos seus ouvidos?
*
Nessun dorma.

ei

Faz tempo né?
Faz muito tempo.
E é uma válvula que nem fecha direito, eles dizem.
O paciente está morto?
Esforços, dizem. Esforços, ferramentas, imagens.
Não consigo me desligar do que eles dizem porque tento me desligar daqui de dentro.
Ei, aqui dentro é grande e quente. Sabe?
NAo, você não sabe.
Dá tempo de outra pessoa saber?
Acho que não dá. Seria muito tempo. E o paciente já estaria morto.
Sigo?
Sei lá. Pessoas, coisas, bichos, vocês estão vendo?
O futuro do passado. Aprendi isso com o Luiz Mantovani, na Literatura.
Então. Eu amo. Tu amas?
Sujeito indefinido.
Inexistente?

décadas

Porque já fazia muitos anos.
Um hotel vermelho, a gente ria.
Uma praça cheia de gente, você com medo, lembra?
Samba. Eu ri também.
"Não tem uma noite sem você", você disse.
E você em cima de mim, sempre.
Em cima, sempre.
"Não tem sem você, não tem, não pode".
Eu adorava. Eu adorei.
*
Passou. vê só?
Tantas noites agora sem mim. Sem você.
Sem vermelhos, sem samba.
Sem.
Tantas noites sem.
Noites?
Ha.

noite linda

E é isso que ela é, uma noite tão linda, hoje, meio quente meio fria, por conta da minha febre. E é uma noite em que os cachorros me saúdam e minha filha ri à beça e sim, temos mesas de madeira que sustentam desejos e vontades e verdades. Ali, do outro lado da rua. Bares desconhecidos, depois a gente vê como são intimamente conhecidos e nada suspeitos, de tão suspeitos que são. Carnes e cervejas e risadas e tudo o mais numa noite sem estrelas que vai longe e segue infinda.
Assim sou eu e assim é você e assim somos todos. Sem estrelas. Infindos. Até o fim.

porque é uma nuvem

e não chego lá, não toco. não alcanço e talvez não veja. a nuvem que não existe.
eu aqui e ninguém mais, ninguém nunca, como sempre.
sempre ninguém nunca e nunca ninguém, e é e foi e vai ser. porque minha força congelou como já congelara antes e porque ninguém vai ver como nunca viu.
porque eu sou a nuvem à qual ninguém chega, não toca. não alcança e talvez não veja. eu sou a nuvem que não existe.






:: 22 de julho, 2005 ::
MARÇO

meio lá meio cá...
...como você disse, hoje de manhã.
meio lá, meio cá. meus cabelos de fumaça; meus olhos ainda pingando chuva.
pingando. olhando. chuvando, na falta de tapetes e também nos tijolos.
*
e pra quando é isso?
se é que é?
só sei que a felicidade está, e estou enfumaçada e pingante.
e não entijolada, agora, talvez amanhã também não.
*
só espero estar totalmente aqui.

ow

ow.
de novo, não.
Deus meu, de onde?
tirar tudo isso de força e tal?
pode ser hoje, sei lá.
pode ser segunda-feira.
mas não, não sei se dá.
sério.
de novo, não.
mesmo.

versinho

Se me olhares nos olhos, ficas.
Se me deres as mãos, és raro.
Acreditando em mim, sou tua.
E dizendo a palavra, és meu.


ombre

Tudo isso que dentro de mim escorre - à revelia
É aquilo que não tentas segurar - mas também não estimulas.

Aquilo que delineia nossas sombras - (pas alegria)
Não vem dos instantes passados - e sim das vontades tão cruas.


Wings

As asas que começam a aparecer.
Já dentro, elas, as asas, há muito. Eu na toca, crisálida, ainda.
Se estou à vista, crunch.
Na toca, tranquila. Serenidade, um pouco.
*
Agora começam a brotar, aqui. Bem nas costas, vê?
Coça um pouco. Mas o vento batendo aqui é uma sensação indescritível.
Não posso falar ainda porque nunca fui. Estou sendo agora.
Só dá pra falar do que se vive.
Ou nem isso.
*
Por isso, shhh. Taci. Non parlare.
VOLA!

Pietra

Porque esse deveria ser meu nome.
Sempre. Sou pedra, não me movo, e tchabum, o mar bate em mim o tempo todo. Quero ir também, mas não consigo. Jogo uns cascalhos, finjo que vou, sabe? Finjo que vou, e as pessoas acreditam. Mas eu não vou, eu nunca fui, e às vezes duvido que algum dia consiga ir. Porque sou pedra, porque sou pietra, porque sou roccia, rock, stone, erigiram-me aqui e aqui estou e tenho muito medo, e tenho tanto medo, meu Deus, quanto medo aqui dentro, e já sou meio medo e meio pedra, dura, tudo duro, tudo tão frio. E dentro de mim às vezes desejo que fosse oco, pra poder me deixar mais leve, mas não sou passagem, e sim acumulação, e tá tudo acumulado, aqui dentro, olha, tudo tão acumulado e amalgamado, mesmo aquilo fragmentado está todo aqui, nas caixinhas, e não vou porque não posso, porque não tenho raízes mas sou tão pesada, aqui, entre toda essa massa pétrea que um dia achou que eu pertencia àqui, e eu acreditei, e deixei, e fiquei. E agora não tem eu que não fique, porque fiquei e fico, e resto. Por isso os peixes passam por mim e riem. Por isso as ondas passam e avançam sobre mim. Por isso as algas aproveitam e se prendem em minhas pernas, e por isso eu grito e o grito que ninguém ouve vira pedra também, ele também. Que Midas irônico esse, que tudo toca e tudo gruda, e amalgama, e fica dentro, bem dentro, bem fundo, e não larga, e craca, e petrifica.
E esse é meu segredo mais íntimo.
E é isso que me dói tanto e eu nunca consegui dizer.
E eu ia pedir um abraço.
Mas podem ir embora, agora.
Vão e não olhem pra trás.
Porque de estátua, basto eu.

Mood

Ou mais do que isso. Sinto que me descascaram e eu não sei ficar assim. Não sem um abraço, agora. Aquele que não vou ter, agora.
*
Borboletas aqui na minha cabeça, muitas, e tantas no meu peito. Medo do pânico, medo do vácuo.
Estou exposta demais e não consigo mais achar minha casca de sequóia. Tudo hoje foi tão bom, mas meu rosto continua molhado, e meu peito ainda preso, como se tivesse tanta coisa ali dentro que nem eu sei o que é.
*
E não quero saber, mas é um parque de diversões ridículo, porque eu não quero nada, não quero surpresas e bum! bem-vinda à roda-gigante da tua cabeça, e bum! olha o show de palhaços da tua vida, e bum! lá vem a fanfarra do teu futuro, e parará-tchhh.
*
Meu desejo era conseguir dormir, mas meu corpo se pendura em fios de alta tensão.
Me descascaram sem pedir licença.
Colocaram um espelho na minha frente sem perguntar se eu queria.
E eu vi, e estou vendo ainda, e se fechar os olhos só piora.
*
Essa folha em branco em que escrevo também me reflete. Vou fechar o caderno, é tudo que posso fazer. Desculpe.
*
Talvez eu abra depois.
Depois de ser suturada, de cima a baixo, pelo abraço de alguém.

abdução

E o cara entrou no elevador e falou sobre abdução.
Mas eu não acredito nessas coisas.
Como eu não acredito no que sinto agora e no que descobri dentro de mim, mas tudo é verdade, pode acreditar.
*
Tudo tão difícil, às vezes. Você sabe, vocês sabem.
*
Música chata na televisão, meu cachorro pedindo carinho, mas como eu posso dar alguma coisa que eu nem tenho agora?
*
Ah, e se você me pede pra explicar, acho que não. Acho que não, você sabe que sim, e você sabe que sempre.
Que sempre.

Lua-me

Lua cá dentro.
Olho pros lados e tudo escureceu?
A lua aqui dentro, salta aos (meus) olhos. No espelho.
Na água da banheira.
*
O cheiro aqui é o mesmo, beibe. Os tijolos no lugar.
Balões em cima da mesa, ainda. Pedrinhas coloridas.
Mas essa lua eu ainda não tinha visto. Não nessa água.
*
Vou beber a lua hoje.
Água pra dentro, docificada - enluararei-me.
Pra mim.

horas bolas

E meu relógio parou.
Ele pára uma vez a cada 6 anos.
E quando ele pára, uma coisa muito muito, mas muito boa acontece.
Diz que é o que eu estou pensando.
Diz.
*
Obrigada.
*
PS. Meu cheiro é de Dolce Gabbana, if it rings a bell or something.
Marry me.


Tesouro

Desaguada. Ainda.
Mãos pelos pés, escorrendo-me em palavras e suspiros.
Porque às vezes não dá pra guardar as coisas nos bolsos.
Porque às vezes nem bolsos eu tenho.
*
Tuas mãos, aos meus pés.
Isso pra mim era tesouro.

felicidade?

não, obrigado. estou muito ocupado em ver as coisas cinzas. pra que procurar a felicidade? e se eu achar? vou ter que lidar com tudo o que ela traz. jogar tanta coisa fora. viajar. amar. me olhar no espelho.
mesmo todos os momentos esfregando na minha cara barbada todas as cores de felicidade, eu fecho os olhos. sabe por quê?
eu continuo, assim, achando que a felicidade vai cair na minha cabeça quando eu virar uma esquina, jogada por um anjo de cima de um prédio. e vou acreditar nisso pra sempre - porque isso não vai acontecer, mas ninguém vai poder dizer que eu não acreditava nisso.

vaga

Teus olhos de cartum.
Queria ter olhinhos de cartum, também. Quando eu me desenho, eu sempre coloco estrelinhas no lugar dos olhos.
Mas os teus são duas meias-luas, fechados. Dois sorrisinhos, na hora de dormir.






:: 21 de julho, 2005 ::
extended

Dias espessos, esses.
Quentes e espessos, de grudar suor e palavras em tudo que se movimenta.
Água por tudo que é canto, canto em tudo que é (m)água.
Estico minhas férias até segunda-feira.
E durma-se com um barulho tum-tum desses.






:: 20 de julho, 2005 ::
FEVEREIRO

lost in translation

Fui ver hoje.
Minhas percepções?
Sabe aquele sussurro no final do filme?
Aquele é o filme.
*
O sussurro é a história toda.
Um sussurro que ninguém ouve, só quem sabe.
Ele e ela, no caso.
E eu, e você, e todo mundo.
Todo mundo tem o seu sussurro dentro de si.
Pra ninguém mais no mundo. Pra ninguém que assiste.
*
O sussurro é a vida. É o pocotó dentro do peito.
*
E basta.

madrugada

Já é madrugada e eu preciso ir dormir, mas como, agora? Aquela dor do lado direito que sinto quando estou fértil, aquela dor que me deixa ligada e desligada alternadamente e tudo ao mesmo tempo, aquela dor parece que tomou conta de dentro de mim inteira e tudo dói no sentido menos literal e mais perfeitamente adequado ao momento, e não sei fértil do que estou agora, não sei se em minhas areias quentes e secas agora cabe semente, mas agora é o momento e meus pés ainda enroscados, sinto. E tudo isso que podia acabar talvez com uma palavra, talvez com uns dedos enroscados nos meus ou até com uma brincadeira boba que me fizesse rir. Muito. Escancaradamente, até sair lágrima do meu olho que se fecha com os grãos do deserto que o vento insiste em jogar na minha cara. Eu não sou camelo, eu não guardo (m)água, eu não guardo nada. Não tenho gavetas, sou um banco sem praças em volta, sou um não-ser o tempo inteiro até encontrar um espelho que não reflita meu rosto. Acho que esse seria meu oásis. Nada de palmeiras ou fênix ou coisa que o valha - meu oásis seria esse espelho que só eu sei o que refletiria. Se existisse. E eu não existo sem esse espelho inexistente, e pedra sou, e pedra fica.
Pois pedra fico.

Sal

Todo o sal esparramado, quero todo ele, agora, na palma da minha mão. Entorpecer por acumulação e não por passagem.
Lamber, sentir, engolir talvez. Desterrar.
Dessalguei há algum tempo e agora tenho fome. Alagada. Desa(r)mada. Melodia em três tempos, tropeçando a dois por quatro, mas indo em frente e rindo de mim.
Rindo muito de mim.
*
Então me dá teu sal e - repito - diz qual é meu nome.
Talvez eu goste. Quem sabe eu fique.
Pelo menos um pouco.






:: 19 de julho, 2005 ::
JANEIRO

ano novo

2004.
E eu continuo dormindo com o travesseiro em cima da cabeça. E deixando o rádio ligado, no carro, enquanto vou à padaria para ver que música está tocando "de presente" para mim quando eu volto. Continuo procurando estrelas toda noite, lembrando de quando eu viajava em cima das caixas de som do galaxy dourado do meu pai, pra Ilhabela. Continuo achando que quando eu perco um brinco é sinal de sorte, e rezando todas as noites. Continuo sonhando com lobos que me mordem e que eu não quero matar. Ainda penteio meus cabelos pro lado e mudo de cor a cada mês. Continuo ouvindo Cyndi Lauper a todo volume, e chorando com músicas novas dela como "Walk on by" e "Stay". Ainda insisto e insisto e insisto.
E me dá vontade, às vezes, de deitar no colo da minha mãe e dizer "mamma, já é 2005?"..

tranquilità

Parece que estou roçando a mão em algo que me parece ter a textura da tranquilidade. Se for isso mesmo, fico feliz - nunca estive assim perto, tanto é que não reconheço esse cheiro de madeira.
*
Serenidade, tranquilidade, clareza - as damas que vêm trazendo a redenção pras três guerreiras do meu apocalipse - vontade, permanência, intensidade.
Essas três que estão do lado de lá da porta, por enquanto - batendo, batendo cada vez menos, dormindo de vez em quando na soleira. Deixo um prato de carne crua pra cada uma delas, rapidinho, e volto pra dormir.
*
Dormir coberta pelo perfume, que vem de longe - cada vez mais de perto -, de madeira escura e úmida.

Brother
There are these days when a Fedex truck
stops by my house
and I don’t go out
’Cause it’s dawn.

Other days, late at night,
I open the door and on the doorstep
there is nothing but the option
for me to look up and drink stars.

But sometimes; sometimes, you know
-when one does not know what time it is-
I don’t even open the door
I open my eyelids – and oh! brother’s there.

Irmão

Tem dias em que um caminhão de entregas
pára na frente de casa
e eu não saio
por ser madrugada

Outras dias, tarde da noite,
abro a porta e, na soleira,
não tem nada, só a possibilidade
de olhar pra cima e beber estrelas.

Mas às vezes; algumas vezes, sabe -
- não se sabe se é manhã ou se anoitece -
eu nem abro a porta -
abro os olhos. E meu irmão está em casa.

até escorrer

E se não fui, sinto um cheiro agora de alguém que acho que serei, alguém que talvez eu esteja tocando, já, com as mãos tranquilas. Estas minhas mãos que também seguram uma rosa e a espremem até escorrer um líquido de cor doce, com cheiro vermelho. Sem espinhos, não mais, aqueles que me deixaram alérgica após alguns anos.
Não mais me entrego desatada, visto que atada sou - ainda - a algo alhures, e também já que me entregar não é bem o verbo que me vem à cabeça nesta hora. Me experimento, sinto o calor do parapeito da varanda e olho não pra cima, mas pras torres bem à minha frente.
Olhos sem o allegro de outrora, me disseram, muito bem, experimentemos então um sustenido, um sol maior, um lá. Lá. Acho que lá é melhor. Um moderato cantabile, então, pra eu não ser mais unsingwithable anymore.
Pode cantar comigo. Me dá um anel de prata. E a gente de repente até escreve junto. Não quero gritar, não vou morder, lágrimas também não quero, obrigada. Talvez eu sorria. Talvez eu aceite.
Mas isso também é só especulação.

oceano

e eu que sempre preferi o campo à praia.
vontade de mergulhar fundo, bem fundo, na água salgada e quente. olhar pra baixo e ver estrelas, for a change.
dormir um pouco, dentro de uma concha. sem barulho. sem som. sem ar.
um pouco.
*
talvez eu ache uma arca à la Disney. em cima de uma pedra com muitos ouriços. o que vai ter dentro dela? eu sei o quê. mas não posso contar.
*
mesmo porque sempre é essa a hora em que eu acordo.

Gentle

Fala baixinho comigo. Sê macio. Sorri quando o sol bate no meu rosto, de manhã, e me acorda. Desenvolve a mania de ter as mãos dadas comigo. Andar de mãos dadas, beijar no cinema. Fala baixinho comigo.
Fala baixinho.
E eu posso até te amar.






:: 18 de julho, 2005 ::
DEZEMBRO

carinho

talvez chuva, talvez um cheiro de gengibre, talvez cerveja, ou quem sabe um beijo.
tua pele na minha pele,por favor.
tuapelenaminhapeletuapelenaminhapele e é difícil não dar espaço mas eu não quero dar espaço. eu não quero dar espaço.
tuapelenaminhapele. tuapelenaminhapele.
sem espaço. por favor.

*

nada de mais

uff, calor - apesar de uma febre sem noção não ter me deixado senti-lo por três dias, visto que fiquei embaixo de um edredom de dois quilos, só saindo quando em vez para revisar um texto ou levar o Prozac no veterinário (tadinho, ele também está mal - o Prozac; não o veterinário).
*
A febre me faz perder também a noção do tempo - quando acordei, hoje já era quinta-feira. Febre pra mim parece sonho - é um abismo do caos, sem tempo, sem espaço, sem nada a não ser o fogo, o fogo.
*
Daqui da janela, um céu em vários tons de azul-pastel, com alguns lampejos de rosa perto da torre que pisca. Poético.
Tudo fica meio roxo, os prédios, o céu, o escritório. Essa hora é muito linda.

don't think

como não pensar. escrever sobre não-pensar é como não deglutir uma coisa que existe, cuspir, rejeitar.
estou sem pensar, sem tirar conclusões, há uns 4 dias.
a dor é menor quando não se pensa nela. o amor é menor quando não se pensa nele.
na minha cabeça, pelo menos.
parece que minha cabeça tem uma lente de aumento. se eu penso no que sinto, sinto dois bilhões de vezes mais.
quero pensar no que faço, agora. porque no que sinto não adianta agora, e parece que nunca adiantou.
pensar no que faço, e fazer. não pensar no que vou fazer, mas no que estou fazendo.
o que adianta pensar no que sinto? me paralisa. quero falar, não tem com quem. e se falar, não tem como falar exatamente o que sinto, então é melhor não pensar, não falar, não sentir (tanto).
dormir. escrever. ler. rir. abraçar.
fazer.
porque mesmo pensando tanto, as coisas vêm e caem na minha cabeça. não adianta. melhor olhar pra cima e fazer - sair de baixo e deixar as coisas se espatifarem no chão. sem pensar. pensamento não sustenta pianos que caem na minha testa.
nunca sustentou.
*
enough

teumeu

como dizer "é teu, não é meu", se na minha alma o arame farpado esfiapou tudo e já não tem teu e meu?
se eu sou tua e você (ou tu, whattafuck) é meu e já não existe nada que signifique barreira ou limite?
ah deus, como eu queria ter algum limite pra alguma coisa mas eu simplesmente não consigo.
e isso não é de se invejar; é de se lamentar. prasempremente.
porque não acho que um dia vá conseguir dissociar o você do eu.
porque aprendi muito assim, mas não o suficiente.
porque o campo de concentração do voceeuvoceeuvoceeu continua aqui e dá choque e eu emulo você e bebo uísque e fumo marlboro e ouço as músicas mas não me livro do meu eu.
porque o meu eu está acorrentado pelo tornozelo no teu ombro e grita agora. grita tanto que não durmo, grita tanto que me apavora.
porque quando eu disse "pra sempre"alguma coisa me carimbou e mandou a carta lá pra longe e é lá onde eu estou.
estou lá longe no frio e na neve, observando o voceeuvoceeuvoceeu que se apavora. e não posso fazer nada pra te desacorrentar.
a fraqueza é o leão mais potente que já enfrentei nessa vida.
desculpe.






:: 17 de julho, 2005 ::
NOVEMBRO

mãos dadas

Mãos dadas?
Talvez.
Você me leva passear de novo no campo de girassóis que deixei lá pra trás? Um perfume dessas flores acho que é do que eu precisava agora.
*
Torno-me inofensiva, às vezes.
Fecho a boca e minhas palavras já não existem.
Quisera ser assim eu também, fechar os olhos e não existir
Por uns momentos.
Sapateando frases e verbos já repisados - caminho, esse?
A noite já caiu e eu em pé. Levantando suspeitas escuras.
Coisas que não são já são, porque quero que sejam e acredito.
Acreditar talvez seja o não-verbo do agora.
Talvez seja.
*
Mãos dadas?
Sim.
Porque não creio.

meus teus

O teu eu em cuja sombra durmo às vezes - sobre ele, o quê? Se enrosca em abraços nas crateras que cavei e que molho, dia após dia - e de onde vez em quando vem um perfume de flor branca.
O meu você, aquele que não aparece no espelho - sob ele, o quê? Se abstrai em existires transparentes que toco, banho e cuido - e pr' onde vão a cada noite os mais suaves pensamentos.






:: 16 de julho, 2005 ::
OUTUBRO

amealha

Amealha-me, querido, junta então a dividida
Minha lagoa que agora é inundada por teu rio
Pergunto-te, então, cá no instante-calafrio,
Meu amor, me diz, é líquida, afinal, a vida?

Ah Valente, do pano azul estendido no sofá
É que vêm todas as coisas que agora já nem são
E é isso que eu quero te dizer – é um preto alazão
Que corre no meu peito sem querer nunca parar.

As palavras aspiradas no calor de meus ouvidos
Sussurradas feito pano em minha saia
Tecem sem medo o valor do porta-jóias
Em que guardo, carinhosa, os instantes mal-vividos

Da lagoa, meu Valente, vêm os ventos da canção
E é a eles que me entrego, feito sereia sem asas
E é pra eles que ele faz, o tum-tum, meu coração.

mondo grande mondo

Já não inflamava mais. Já não comia a pele dos cantinhos dos dedos até sangrar para não estragar, roendo, as unhas vermelhas. Explodia, às vezes, mas isso não inflama - evapora, exaure. Alivia.
Sufocava, de vez em quando. Por tormentos externos ou internos, o que na verdade já tanto fazia - no boundaries, disseram.
*
Ah então pronto. Deita minha cabeça aí no teu colo e vai contando os fios dos meus cabelos como eu conto as estrelas lá do céu, desde pequenininha. E não cansa, e não pára, pelo menos por agora, porque eu não vou parar também.
E eu vou te dar o mundo. Só pro teu mundo ser eu.
Big Bang.

sake

sobre o livro por sobre o qual a traça já passou correm os seus olhos já úmidos de palavras e verbos e traços. ela tenta transitivar os verbos intransitivos antes do ponto final e ponto! já acabou a frase e ela corre pra linha seguinte, com ainda um tracinho de esperança a virgular a respiração contida.
vontade que as coisas continuem, vontade de sempre ter um capítulo a mais que diga que o ponto final é um grande mentiroso.
talvez por isso ela sempre leia o livro de trás pra frente, feito japonês. assim ela prova a si mesma que depois do epílogo tem tantos outros capítulos ainda a serem lidos.
*
um outro gole e a esperança fecha o livro.
a leitura inacabada embriaga como a garrafa do sake.

translação

Seis e quinze, meu olhar-teu sol que se alça à idéia de você
você, campo de trigo, você, os cataclismas, você, a macedônia.
Minhas íris, raios pra te aquecer por doze horas e meia,
você, todo outonos, você, os sete mares, você, a babilônia.
*
Quinze pras sete
Meus olhos se põem por detrás das colinas dos teus ombros.
*
Um Japão que vira Islândia. Teu sol não sai mais daqui.

O Ogro Papa-Almas

Acho que era sexta-feira. Era, definitivamente, sexta-feira, pelo cheiro cor de laranja do ar.
O Ogro-Papa-Almas tinha subido em sua jangada e a sombra imensa dele ainda se refletia no canto da mesa quadrada da sala maior; e o Medo tinha pegado carona na embarcação e aproveitado pra ir junto com ele.
Chovia e algumas rosas teimavam em não abrir - quem sabe besouros turrões dentro delas as tivessem trancado a chave.
Uma vida inteira sem mar, porém, desabrochava feito setembro no peito da moça. E já era mar e já era outubro e já eram jangadas nunca mais retornando. Sombras não mais, Medo não mais, Ogros talvez - mas não por ora.
Ficou amiga do besouro turrão - e ele lhe emprestou a chave-mestra tranca-portas. Trancou então o seu mundo e ninguém mais entrou nem saiu.
*
Dizem que o Ogro mudou sua dieta e foi visto, pela última vez, no alto da torre, junto com o Medo, comendo insetos ao molho de flores. Mas pediu pra não espalhar - afinal, ele tem de manter sua reputação.






:: 15 de julho, 2005 ::
SETEMBRO

tudo tudo

seus olhos pequenos que abraçam tudo que eu tenho de sombra em mim.
o seu olhar, valente, seu olhar apertado de quando você sorri a boca bonita, é desse seu olhar que eu tenho mais saudade agora.
*
pocotó no meu peito, pocotó hoje mais do que nunca, acho. e sei que você está comigo porque eu sinto, e senti hoje de manhã o tempo todo, e ouvi o seu sorriso. ei você que rebatizou meu corpo, olha só, hoje de manhã rebatizei a minha alma, e eu estava com minhas mãos assim bem dadas com as suas.
*
(e acho que é assim que elas vão ficar por muito tempo.)
te amo tudo.

noturna

Afogada no sol que parte
A licorosa distância me parte
Em duas, e três e quatro,
E às cinco da tarde já sou seis.
*
E é submersa que me deito, entreaberta, e o veio d´água já fragmentado em dois e três e quatro é o rio que me corre entre as pernas, pra longe do porto.
*
Horas antes, os navios ali; os navios sumindo, horizontes.
Uma reserva d´água salgada ainda na boca que não diz.

noite

ei valente, aqui do teto de casa a cidade parece um grande bolo de aniversário, cheio de velas piscando.
velas amarelinhas e laranjas, algumas azuis.
uma música ao fundo, que não é parabéns a você, mas exalta tanto quanto.
*
ei valente, ei valente cavaleiro, as sombras aqui nem existem. a sala ainda está meio careca, falta cor, acho. texturas, talvez? e se o caracol da escada que leva lá pra cima for pintado das sete cores do arco-íris? só o caracol, não os degraus. seria lúdico? seria doce?
*
ei valente valente valente, queria encher as paredes de tecidos.
comprar talvez mais alguns travesseiros de penas pra camona.
ganhei um perfume novo de baunilha.
*
ah, valente, quer saber? um abraço teu me bastava agora.
boa noite.

sooooooooool

e soooooooooooooooool que amanhece todos os olhos.
todos os sorrisos amanhecendo de uma vez.
entardecendo as poeiras que um dia foram; não são mais. tarde demais.
cedo demais para dizer se entardeceremos juntos, mas o sol que acaricia ilumina as verdades, as minhas e as suas.
o sol, aquele que gira-gira-gira-gira as vontades, as nossas.
gira-gira-gira-sol, agora e para sempre.
amém.






:: 14 de julho, 2005 ::
AGOSTO

aldeias

Dentro dos teus olhos tem duas aldeias escuras
Que se alaranjam só na madrugada
As pessoas que lá moram andam devagar
E falam outra língua.

Heranças labirínticas? Impetuosas lembranças?
Nada disso, nem meio disso - tudo é novo ali.
E ao mesmo tempo, tudo se cria o tempo todo.

telhados

Telhados cor de ferrugem com clarabóias escancaradas deixam entrar borboletas cobertas de pó de pólen que estranham tudo, dos móveis descascados até o cheiro almiscarado que permeia cada fresta.
E cada fresta é uma entranha a mais e cada escancaro é um casulo a menos.
*
Uma lembrança do que foi uma petúnia.
Uma saudade de um flanco que aquecia.
Uma vontade do abraço desistido.
*
Imediatamente antes, entre a manhã e o soluço, prosseguia a paisagem.

tiquetaquetando

a ponta dos meus dedos
borboleteia algumas linhas
insubstanciando,
freneticando saudade.

descoisando coisas
o tumtum do meu peito
passa a vida toda
tiquetaquetando.

paradoxo

Grande em teus pensamentos.
Pequena em tuas mãos.
É assim que eu quero.

imaginário

Letras molhadas de roxo, aquela primeira letra sempre
E um esboço de sorriso pinta meu rosto de mim mesma.
*
E já não é mais o sol amarelo mas uma grande e gorda lua que paira sobre minha cabeça e o céu é qualquer lugar como sempre foi mas se escondia porque eu não acreditava nele.
Tal meu amigo imaginário, o Licki - quando eu descobri que ele não existia, ele desapareceu. Necessariamente nessa ordem.
*
**Mergulho**






:: 13 de julho, 2005 ::
JULHO

Hush

O segredo da vida, a cada dia mais tangível
A cada hora mais vermelho
É a imutável sede de longos caminhos,
São os setembros que se atiram da janela.
*
É a palavra que, muda, numa sanha indizível,
Se espatifa incontinente contra o espelho.

Começo

Acho que eu precisaria ter nascido com um olho em cada lado da testa, como os sapos, os tubarões-martelo etc. Assim talvez eu conseguisse antever coisas que hoje não vejo nem com olhos bem abertos.
*
Andando de olhos fechados, olhando jasmins pelas calçadas, brincando de pisar na minha própria sombra não dá certo mesmo.
*
E nem adianta esta minha mania de beijar de olhos abertos - porque aí já foi, o cavalo de tróia já chegou, o país já foi invadido.
*
A partir de hoje vou brincar de não piscar. Nunca mais. Valendo.

Idea

A idéia que circula incandescente. O mar fora de mim, que de tão extrínseco não me sabe. O mar não sabe a mim; eu não sei a mar.
E esses dias que não conheces passam lentos. E os invernos em que não fui tua não existem.
Um quarto de lua que se faz monte; um quarto da casa que se fez verbo.
Montanhas.
Latejas, grande. Impulsionas, infinito. Não queres.
*
O meu não-estar que enlouquece, os pés descalços que não se cobrem, o esvaziado que existe.
Que existe.

Pergunta

A gente não chegou a sentir cheiro de grama cortada, né?
Mas é como se eu já tivesse sentido esse cheiro com você milhares de vezes.
*
Um cheiro de infância. Um cheiro de back home, sabe?
Eu sei que você sabe.
*
Porque eu sou uma mulher-pergunta.
E você é uma pessoa-sim.

Querência

É, hoje eu queria mesmo vestir minha bota velha e preta e até o joelho e ter muito money, money, moneieieieieiê no bolso e mandar um vestidinho no corpo e uma mão na tua mão, bem apertadinha, e rir daquelas coisas bobas que não têm a mínima graça e que coexistem na tua cabeça e na minha. É, era mesmo esse o dia, se o dia não fosse esse.
*
Nada de coisa triste ou coisa que atrapalhasse qualquer serenidade.
Uma alma serena, junto com outra alma serena, era tudo que o dia pedia hoje à noite.
*
E não, isso não é um lamento ou uma lamúria ou coisa que (não) o valha.
Porque eu estou silenciosa e tranquila e por isso talvez acredite que uma gota já não é só mais uma gota.
*
Eu pensei que se um dia ficasse tranquila desse jeito que estou agora meu mundo fosse fazer um barulho tão ensurdecedor e retumbante que eu nunca mais ia dormir ou fechar os olhos sem medo. Não só não fiquei surda como enxergo muito melhor também.
Meus cavalos, todos aqui. Pocotó na alma, de novo, devagarzinho. Felizes daqueles em cuja alma moram cavalos malhados.

Canvas

Retinta-me com tuas cores.
Molha-me de tua chuva, pinta-me de tua carne.
Azulamarela-me, beija-me passepartout.
*
Tonsurton andemos.
Aquarela-me.

A história da indiazinha que tinha medo do pocotó

Era uma vez uma indiazinha que morava em uma aldeia no meio da floresta. Nessa aldeia tinha muitos cavalos, mas ela nunca chegava perto porque cresceu ouvindo que não se deve confiar em cavalos. Isso porque sua tetratrisabisavó uma vez caiu de um cavalo marrom e quebrou três costelas.
Um dia, a indiazinha estava distraída quando ouviu um pocotó. E dentro do seu peito um tum-tum respondeu ao pocotó, e ela ficou bem confusa. Achou que não custava tentar.
Mas quando ela ia subir no cavalo, parou. Ficou imóvel, agarrada ao pescoço largo e forte do bicho, com a boca quase tocando sua orelha esquerda. Suou frio. Tremeu. Desceu.
Deste dia em diante não teve um dia em que ela não lembrasse daquele cavalo. Já sem dormir havia vinte e nove dias, tomou uma decisão.
No dia seguinte, a indiazinha foi novamente ao lugar onde tinha encontrado seu pocotó. Fechou os olhos, respirou fundo. E ouviu. Pocotó. Tum-tum-tum, respondeu seu peito. O cavalo chegou perto dela, e a crina dele se enroscou no braço dela. Ela deu um passo pra trás, olhou bem nos olhos dele. Não suou frio. Não tremeu. Sorriu.
Deu um abraço apertado no cavalo, um beijo entre seus olhos, e foram andar pela floresta. Ninguém sobre ninguém. Mas lado a lado.
*
E foi então que a grande profecia da tetratrisabisavó Pocahontas foi quebrada pra sempre.

Fonte

Reconhecer-me como fonte e não como espelho.
Essa é a grande magia do hoje.
*
E que olhos de outrem sejam pois o nosso reflexo e que nosso reflexo sim seja a fonte dos olhos de outrem.
E que curtos circuitos sirvam para localizar alguns fios desencapados e que toda a música do mundo toque alto. Agora.






:: 12 de julho, 2005 ::
JUNHO

Aniversário

Palavras que se enroscam feito meia arrastão em minha perna, cor novembro-intenso.
Quisera fosse janeiro ou algo assim, para ainda ter jasmins pra colher na calçada. Não colhi.
E é um verão que congela e é um esbranquiçado que enegresce até o que não existe mais.
*
Abomino segredos.
*
A maldita da vontade.
*
Quando eu tinha 19 anos eu era mulher.
Me perdi mesmo aos 21, quando cresci e virei menina.

Domani

Desarrumaremos a cama prematuramente refeita
Para que no linho dos lençóis possamos tecer os sonhos
Escondidos sob os travesseiros, cobertos pelas mantas
De vontade, pelo pó das palavras não ditas.

Meus lamentos sairão da terra e lavarão nossos pés
E teus suspiros presos se farão nuvens sobre as quais
Poderemos deitar nossas cabeças, sem medo
Ou saudade, de mãos dadas com o passado vivido.

Releitura do medo

(releitura de Hughes. ou tentativa de sair deste inferno)

Um medo infinito. Um pavor infinito. Como infinito foi tudo que te amei.
*
E o pior pesadelo, enfim, chegou.
Bateu à porta e era nada. Nada. Esse é o pior pesadelo de uma menina de botas.
*
Era um cometa com meu nome escrito nele, e caiu pela chaminé. Um papai-noel com um presente ausente.
Nada que governe uma vida, enfim, já que estrelas fixas pairam como espadas sobre minha cabeça.
Inexoravelmente. Uma sede de algo inteiro, intacto, intenso.
Um sonâmbulo que tenta puxar ar puro pro pulmão. E não consegue.
Era o seu sonho? Era o meu?
*
E o cavalo chamado Tudo acorrentado nas quatro patas, amordaçado em relinchos.
E o dragão do desespero que tudo abate, voando em torno dele. Apavorando. Abandonando.
*
Esprememos essas vidas a quatro mãos. Um suco estranho. Estrelas cruas, grapefruit, porcelana.
*
E você disse, "E pra você, a permissão de se lembrar desse sonho pra sempre. E pra pensar sobre ele".
*
E o escuro que me devora agora, e o medo de ser esmagada pela imensa máquina indiferente, a pedra circunstancial que não consta de nenhum dicionário. Tentei te levantar, colocar teus pés no primeiro degrau da escada, o horror, o horror que chegou antes de você.
E os pêlos eriçados de um cachorro, que era o meu próprio cachorro, aquele que eu nunca tive, recheado de palavras que eu nunca te disse.
*
E dentro do mal-assombro todas as portas são vermelhas e a vida tenta subir os degraus agora de pedra. Quem vai abrir a porta?
Eu não vou. Eu não fui. Eu não estou.

A dor

Dói, arrebenta.
Arrebenta, e se eu usei esse verbo até hoje usei sem saber como era na carne.
Arrebenta porque eu não consigo enxergar porquês. Arrebenta porque não consegui matar nada do que sinto.
Porque acho que o que sinto não valeu pra nada a não ser criar um "inferno" que eu não sabia que tinha sido criado.
Porque eu acreditei até o fim, porque eu investi, porque eu me sinto tão imbecil de não ver nada a não ser o que eu sentia.
O que mata não é a falta de nada, mas a falta de vontade. Não existe não dar, só existe não querer, e não ter percebido isso antes me arrebenta.
*
O tanto-faz do tique-taque dos relógios e o não-ouvir os tuntuns. As chaves sobre a mesa, chaves de portas que não foram abertas. Não sei nem que portas são essas e não quero saber também - não consigo mais.
Não consigo mais.

De

Demoraste
Des-moramos
Desmorono

When

E quando eu for uma velhinha que pinta o cabelo de roxo, eu não vou mais cantar em karaokê.
E não vou mais dançar em inferninhos escuros e cheios de moleques.
E não vou mais encher a cara de diet coke.
E não vou mais me perguntar por quê.






:: 11 de julho, 2005 ::
MAIO

Valente

...e foi quando ele a tomou para si que fez-se dia e as janelas já despudoradamente abertas deixavam então entrar vento e chuva e luz azul num estalar de olhos.
*
...e foi quando ela sussurrou "ai, valente" que sentiu-se um gosto tênue de um breve chamuscar de lábios.

Inspira

Onde será que foi parar aquela minha inspiraçãozinha? É uma assim pequenininha, amarelinha, que vive se metendo onde não deve.
*
Deve estar mesmo dentro de alguma gaveta, junto de um barulho surdo e de um chumacinho de nuvem de chuva. Vou procurar melhor.

Alucinante

Ah então não me repenses, afinal minha memória em ti não condiz comigo, essa não sou eu, essa nunca fui eu.
Manhãs distendidas sobre leitos vazios, é assim que as coisas são agora, e a mão do sol que tenta tocar a nota mais alta, que se esconde.
Quantas vezes o que morre em ti nasce em mim, e nasce em mim e morre em ti, em um ciclo alucinado onde não se sabe mais onde terminas tu e onde começo eu.
Se é que começo em algum lugar.
*
Minhas pernas dóem, os meus braços dóem, e o tecido que arde é a voz da minha fome.
Colhe tuas flores, agora. Colhe tuas flores, aquelas que brotaram e não se sabe se da mão do jardineiro ou do adubo do terreno.
*
Desejo. Permanência. Intensidade. As três guerreiras do meu apocalipse.

PS: (atualização) Como revisora, não podia mesmo ter escrito a palavra "doem" com acento. Mas enfim, não vou mudar. Ficou bonito. Não estou vendo o acento como acento, mas como espinho.

Pertences

A memória encrespada e movediça me enrosca as mãos vez em quando
Mas mesmo assim te demoraste. Tropeçando nas sombras de palavras que, de tão omissas,
Não poderiam nem se chamar palavras.
*
Esquiva-te, esquiva-te, golpeia; golpeia, esquiva-te, esquiva-te.
Um reflexo do que há de mais distante em mim. Tão distante que, a mim,
Já poderia nem mais pertencer.

Pertences.

Fúrio

O que perpetua é a vontade embriagada da qual tento me livrar - inutilmente. Perpetua, desabrocha, flor escura, um mal-me-quer que dá brotos e brotos quanto mais veneno toma. E desde ontem que esse desejo furioso me queima o peito e os olhos. Quando olhei no espelho, estava lá o reflexo da erva daninha que me corroía.
*
Incendeio em choro.
*
A tristeza corrosiva que dilacera. Não queria aquela imagem sozinha no espelho. Uma desmesura, fragmentos de impotência.
Cair no vazio, tentar segurar em nada. E rodopiar na única certeza - aquela que arrebenta.






:: 10 de julho, 2005 ::
ABRIL

Bombonière

Então, sabe a novidade?
A novidade é que tanto faz.
Realmente.
Tanto faz.
*
Aquelas palavras todas vieram até a garganta
e eu engoli. Mesmo.
E veja só, não ruminei.
E não tive borboletas no estômago nem nada.
Um revés de bulimia - engoli, e pronto.
Até esperei pela reação adversa - e nada.
Nada, nada, olha só.
A simples prova de que minhas palavras têm o efeito de um floral de Bach vagabundo.
*
Se ainda tivessem o efeito do conhaque...
*
Não mataram a sede, não me deixaram louquinha, não pesaram nem nada.
*
Uh.
*
E, creia-me. Olhei bem dentro, prescrutei o papiro, ali, cara a cara.
E meus olhos - rá - não estavam ali.

Sonho

Sonhei que me matavam jogando palavras na minha cabeça.
Antes de morrer ainda tentava falar, mas minha garganta ficou fechada por muito tempo.
Quando consegui, não adiantou - quem me matava era surdo (ou a música de fundo era muito alta).

These boots

Talvez tudo o que tenho de mim caiba mesmo dentro de um par de botas. Isso pode explicar a minha paixão por elas - talvez o conforto quentinho, a sensação de segurança. Mas é mais provável que seja a sensação de finalmente continente que mais me atrai.
*
Dentro das botas, nada além de braços quase que ridiculamente abertos de tão escancarados, tentando absorver um pouco mais de conteúdo para de novo não conseguir sentir dentro de um continente fictício. Irreal. Onírico, quem sabe, lúdico, não-tácito. Um pouco mais de coisinhas pra colocar na caixa mágica de Pandora. Aquela que sempre se esquece de se fechar muito bem, muito bem, e se abre todo começo de noite e se perde tudo de novo - mas ficou alguma coisa, não ficou? Não sei, o medo fecha a caixinha rapidamente e vai dormir sem olhar lá dentro.

Amen

Sigo então com os olhos fixos no pra lá de mim
Tentando esquecer o que mora aqui dentro
Pois por morar cá dentro já não vive; habita
E habitar não é o bastante, agora.

Andemos pois com passos firmes e leves
Mãos emaranhadas nos cabelos um do outro;
Tampouco carregas dentro nada que não seja fora -
Por isso te amo a cada dia um pouco mais.

E toda essa tua coragem reside na flor cor de violeta
Que viverá por todos os séculos e séculos amém.

Incontinente

Cabe a mim falar do que sinto?
E se o que sinto não cabe em mim?
*
Sou um apartamento de um cômodo só,
Entulhando agendas e caixas com lembranças que nunca abro.
Funciono por acumulação, e não por desbaste.
Nunca me lembro de nada, passa o tempo e eu não passo - indelével raça de pedras.
Eu não vou, eu não fui e provavelmente não irei.
*
*
*
Não cabe a mim. Porque não cabe em mim.
Uma incontinência do peito - não cabe, transborda.
Nada mais fica dentro; passa isso também. E ponto.






:: 09 de julho, 2005 ::
MARÇO

Alheia

Alheia
Costas nuas, sob um parco manto de estrelas
Que também se escondem por entre nuvens
E já não me encontro mais aqui
Cadê fome, cadê sono, cadê serenidade
Nem sereno mais cai desse céu
Enquanto o céu desaba na minha cabeça
*
Jogo palavras pra cima, talvez voltem, mas acho que não
O terreno celeste é estéril a mim, creio;
Não acho a entrada, não vejo a porta, trancada
Aqui como minha garganta
Que engasga. Que se fecha
E que se enterra, com minhas mãos brancas, nesse castelo de
Areia.

Breathe

Bom poder respirar de novo, e não sentir dor ou prazer - apenas respirar. Bom ser abraçada sem que esse abraço venha embrulhado em nada mais do que ele mesmo.
*
A simplicidade que escorre dos quatro cantos da vida quando podemos observá-la em silêncio tem um sabor doce e esquisito.

Tempesta

Mas não, não chovo em ti. Chovo em mim, desabo.
Sou minha própria tempestade.
Em tempos como esses, melhor não me navegar - mas quem me ouve?
*
Deliciosamente, ninguém me ouve.
Deslizantemente, as mãos-ondas me abarcam, não me conduzindo
Mas me acalentando - maremoto-menina, torrente-criança.
*
Engolir o choro e a água do mar - e não saber mais a diferença entre um e outro.
Essa talvez seja a moral desta (m)água toda.

Vedere

Não foi o fogo que me fez voltar a enxergar, assim como não foi a noite que me obscurecera antes.
*
O fato é que me coloquei nas palmas das tuas mãos enquanto me tocavas.
E foi naquele instante que me vi inteira - e real - pela primeira vez na minha (so-called) vida.
*
*
E depois veio o mundo todo e caiu aqui na minha cabeça. Desmoronou, assim.
Por todo lado, pedaços de carne, pedra, coisa, gente, assim, direto na cara, rasgando, cortando.
Mas fazendo acordar, também, enfim. Abrindo os olhos.
O dia mais pesado do mundo, olha só, não me matou.
*
Mãos dadas, agora. Talvez seja a saída.
Acho que sim.

Enluara

Trovejou palavras, assim como um Netuno. E o maremoto da vontade dele me aguaçou e não me afogou não porque tenho 19 anos de natação nas costas. Mas quase. Quase, gasp, enfim, mãozinha pra fora da água, depois a cabeça, pronto. Gasp.
*
Tempesta. Encinzenta. Cospe chuva, assim, na minha cara, e então, eu que não tenho nada de água no meu mapa astral nem acho ruim, não - falta isso mesmo. Falta a chuva dele. Falta o temporal.
*
Anoitece, então, por favor. Porque com essa solaridade que vem de dentro de mim e de dentro dele eu não consigo dormir.
*
Enluara.
*
Sou sua.

Bum

Implodi por dentro
Sem mais concreto
Aqui nesse peito.






:: 08 de julho, 2005 ::
FEVEREIRO

Olhos

E seus olhos tinham estado fechados até então. Olhos virgens.
No momento em que aqueles outros olhos pousaram neles, a luz de um mundo inteiro entrou por suas pupilas escuras, rasgando, deflorando, desvirginando, arrebatando com uma delicadeza que de tão tamanha doí­a, com uma força que de tão macia constrangia, com uma vontade que de tão aguardada grudava.
*
Seus olhos não sangraram. Mas deságuam até hoje - extenuados. Entorpecidos.

Refolhear

Refolheei-me.
Desfolhei.

*
Refolhear o já escrito. Desfolhar por cima. Cair feito folha amarelada, queimada, quebrada, sobre as folhas defloradas do papel manchado, desvirginado, rasgado, carcomido. Frutificar, ninguém sabe, tentarei?, já tentei, tô cansada, o papel não reflete mais nada.
*
Antes fosse folha d´água, antes fosse espelho, antes fosse qualquer coisa que refletisse, mas há o papel sujo de tinta, e as folhas caídas sobre ele. Não se vê mais nada.
*
O galho áspero que teima em balançar sobre o peito de quem pensa. O galho que arranha. Que arrasta, que arrasa, que arranca. O galho onde não se pousa, o galho inquieto, parte de um tronco sólido e firme e grosso, que impõe sua presença no terreno verde.
*

*
E a folha amarelada. Caída. Sobre a folha branca deflorada pela tinta.
*
Refolhear? Desfolho.

Sim/Não

E sim, todo o silêncio é mudo;
E sim, todo o medo dói;
E sim, sou essa que dá a cara a tapa pras palavras.
*
E sim, tomo as duas mãos do verbo;
E sim, me enlaço na estrutura e é nela que me sustento;
E sim, a transparência cruel me serve de sangria.
*
E não. Eu não sei falar não.

Cabrum

CABRUM. E o trovão, à distância. E o relâmpago, que ilumina o quarto.
E a cada estrondo me escondo, mais e mais, pra dentro do lençol escuro.
CABRUM. E treme o céu e treme a terra e treme o meu corpo de medo.
*
E 1,2,3, CABRUM, e 1,2, CABRUM, e se diminuiu a contagem é porque a tempestade está chegando cada vez mais perto. E eu sei que está chegando mas não deixo de contar, e 1, CABRUM, e já não se sabe onde termina o lençol escuro e onde começam os meus pensamentos que não acabam nunca.
*
Queria mesmo ser uma, apenas uma, com meu cavalo marrom. Cavalos adoram correr na chuva, e quando estou sobre meu cavalo eu também adoro. E o cavalo está lá dentro de mim em algum lugar, e, sinceramente, acho mesmo que quem está contando 1,2,3, é ele. O cavalo, louco pra me ver atordoada pela densidade da chuva.
*
O cavalo que chama a chuva e ao mesmo tempo me protege. Couraça às avessas, escudo interno. Meu cavalo, o que há de mais kitsch e mais infantil e mais puro dentro de mim. Talvez meu único pedaço que, por não me pertencer, seja meu. Até o fim.

Circunvolta

Quanto mais te penso menos te sei
Porque nem sei se quando te olho estás ali
Se épra ti que olho, se é aqui que estás
Se és tu - se estás.
*
A idéia é mais palpável, às vezes.
A idéia que inflama.
*
Vou me fazendo medo e muralha.

Circunvoluções do instante em torno à lua,
que ela mesma não passa de uma idéia
colorida de sépia e amarelada pelos outros pensamentos.

Perigo
Parar de oferecer meu pescoço o tempo inteiro.
Um dia ainda encontro um vampiro ou um carrasco.

Incendeio

Incendeio.
Em febre, em saudade, em palavras que escorrem na sangria. As palavras que muitas vezes me salvam, as palavras que me levam pra outro corpo que não o meu.
Incendeio e está tudo bem porque não estou aqui, e não sinto mais febre ou saudade. Incendeio.
*
Não sou tépida, não sou morna, o mundo não é feito para os mornos
*
E o tecido flamante do verbo escorre pelos meus dedos ferventes.






:: 07 de julho, 2005 ::
JANEIRO

Concepção

Deitada sobre aquele que concebe.
O que concebe razões e emoções e desejos e vontades e instinto.
Concebendo pensamentos e elocubrações diversos - a concepção que direciona.
Que guia, que gira, que faz.
*
O ventre livre, o livre-arbítrio, a liberdade em si.

Sensação

Então. Sabe aquela sensação intensa de felicidade da qual eu falava outro dia,
em que se está tão perto da perfeição que dá medo até de respirar? Que dá medo
que doa? Que dá medo e pronto?
*
Então. Não dá mais medo.
*
A coisa é mais simples do que eu pensava. Na verdade, a coisa é toda impensável, e se
você pensa nela já não é mais a coisa e aí sim assusta e apavora e dói. A coisa é e ponto,
e não assusta nem apavora nem dói. Simples assim.
*
Ow, I´m finally home. Thank God.
Que enfim de onde vem qualquer concepção.

Feel and fill

Fill me up with your joy.
Feel my joy on yours.
*
Filling e feeling e filling e feeling, e é aqui que começa aquela grande aventura onde não se sabe
mais onde começa um e onde termina outro, e os pensamentos são os mesmos quase ao mesmo tempo
e o cheiro dos dois muda porque já não é nem o meu cheiro nem o teu cheiro, mas o nosso cheiro, e isso
sim faz toda a diferença - uma coisa capaz de mudar o meu cheiro não é uma coisa à toa e esquecível e transferível e
passável e falável ou qualquer ível ou ável mas sim ente, quente, presente, intransigente, permanente,
isso tudo é ente até a raiz da alma e é isso que faz toda a diferença, é isso que me faz estar tão aqui,
tão inteiramente aqui.
*
Nenhum pedacinho do lado de fora, estou toda aqui, e tudo pulsa, e tudo é, e tudo um.
*
E os olhos do meu beibe são um espelho frente aos meus.

Amor

E não é mais como quando não se sabe se é manhã ou se anoitece, aquela hora
meio lusco-fusco, aquela hora que confunde e que não se sabe se é madrugada
ou se entardece, não é mais.
*
Não é mais aquela dor que não dói e que por isso não se aguenta.
*
É hora de olhar teus olhos sob o sol de dezembro. Olhar o escuro dos teus
olhos escuros e ver tudo tão claro.
*
Teus olhos escuros.
*
Claros.
*
É hora deste vento de São Paulo me bater nos cabelos e não me irritar mais.
*
É hora de eu ver no vento uma maneira diferente de dança. Um xale que
esvoaça, o cabelo que se destrança, a brisa que acaricia.
*
Tuas mãos. Meu vento.
*
Teu vento. Minha chuva.
*
É hora de esperar pelas cinco da tarde pra sentir o cheiro da chuva da gente
no parapeito quente da nossa janela.
*
Deus. Como eu amo você.

Pandora

*
Eis a caixa que abro há cerca de 30 anos, cujo conteúdo já conheço de cor,
mas que a cada nova abertura me surpreende com a nova força e os novos cheiros
e a nova cor que cada pedacinho e cada palavra e cada estrela que saem da caixa
me atingem.
*
No fundo da caixa, grudada, para sempre, a Esperança. Esta não foge mais de lá,
nunca fugiu, nem quando eu quis.
*
E de mãos dadas com ela, um cavalo castanho, de nome Paixão, que a leva para
passear pelas câmaras secretas da caixa nas noites de verão.

Imenso

E é na imensidão do mundo que eu vejo teus olhos
dois anjos castanhos que observam a vida por cima
da vida e que vêem o que não é visto e que flutuam
em torno de mim e que aparecem nas flores
e que florescem frutos sobre pedras e que
me transmutam em areia.

E é na imensidão dos teus olhos,
Amor,
que eu vejo o mundo.

Abre olhos

Perder-me neste riso que não cabe em si mesmo
E rodar e rodar e nadar lá onde nascem aquelas águas
E sentir o fogo lento que não abranda com o tempo nessas mãos
Que já colhem o broto da semente e colocam na boca extenuada
Tão perfeita e sentir-me mastigar
E me encontrar de novo nesses olhos...
*
... Abre teus olhos, abre teus olhos.
Se não já sou a mariposa que bate na lâmpada.
Se não já fui.
*
Abre teus olhos.

Wolf´s garden

So that´s what it is
I just ain´t good enough for you babe
Meu coração arde e arde e arde
E tudo o que eu sinto gira em torno de você, babe
E eu tento e sonho e tento e sonho
Mas às vezes simplesmente não consigo entender por onde
chegar no teu coração de lobo
tá, e isso me mata,
porque ain´t good enough
simply ain´t good enough
e sinto os uivos chamando
e sinto o cheiro e sinto o vento
but I ain´t good enough
so sorry
ain´´t good enough
*
wish I had you forever

Medo

O medo que eu sinto é bem parecido com meu sono. Ele vem sem motivo nenhum, assim, do nada; não depende nem de mim nem de ninguém pra aparecer e dar mostras físicas de que ele existe e está dentro de mim soltando fogo e me mordendo o estômago; nem o medo nem o sono vão embora quando eu mando.
*
O medo que eu sinto é bem parecido com meu sono. Os dois vão embora com um simples abraço.

****

Mudança na casa. Arrasta-arrasta de móveis, sofás, plantas e fotos.
Mudança na alma. Tirando teias desse peito, colocando veias no lugar.

Tum-tuns

tum-tuns. Que vão calando fundo, e calando a boca e todo o resto, e quando a gente vê são só tum-tuns e pocotós e cadê saída? Pois é, enredada estou, na doce teia dessas tuas palavras que espero se espatifem em meu corpo feito pingos grossos de tempestade e ressuscitem ao teu toque, ao teu toque, que é o que eu preciso sentir agora. Jogando aos céus palavras gritadas de uma garganta fechada de vontade, esperando que elas voltem em forma de você. De você. Sobre mim.
*
e ei-la, a vida que me pega pela mão e me atravessa a rua pro lado de lá como criança. mas não estou presa à vida como a uma jaula, e sim como uma companhia que se deixa levar.e esse sentimento que não cabe no peito e que já é continente em vez de conteúdo tem um pouco de veneno também, mas só um pouquinho, um veneninho que instiga. e se te pareço brilhante é porque tua luz me ensolara. e se já me entendo tua é porque há tempos te procuro, talvez. e se pertenço ao signo do aguaceiro agora é porque abriste minhas comportas, e ei-la, aqui, essa vida líquida, primitiva e desatada, sem margens, à qual me entrego, desaguada.






:: 06 de julho, 2005 ::
Realize

Não, não tem nada pra entender, não. Nem eu entendo. Aqui não cabe entendimento nem nada, são só imagens e cheiros e gostos que eu já senti em algum tempo remoto mas não localizo, na verdade não localizo nada nem dentro da minha casa, na verdade mesmo nem dentro de mim. Não tem nada pra entender, não, nem pra tentar entender, nem pra racionalizar ou pra fugir ou pra seguir, não tem nada, simplesmente, ao mesmo tempo que tem tanta coisa. Nada pra que eu dê um nome, ou melhor, nada pra que o nome que eu dê sirva, nada vai servir aqui, nada se encaixa aqui, não é encaixável, não é nominável, não é nada além de sentível, e isso talvez me baste, sim, isso TEM que bastar, porque não tem nada além disso.
Sentível, é sentível. O resto é nada. Não tem nada pra entender.
*
Take me away from here. Agora, já, nesse minuto. Me leva praquele lugar que sempre foi meu e que eu ainda não conheço. Beibe, me coloca no avião e me leva pra lá, imediatamente. Aquele lugar que vai me reconhecer a hora em que sentir meus pés sobre seu chão, aquele lugar, beibe, que você sabe qual é. Me tira daqui.
Obrigada.

Eterno

Pensar com o corpo, sonhar de olhos abertos, cheirar com as mãos. Contradizendo-me, a favor de mim mesma, chorando de rir, o futuro presente. Mulher meio bicho, razão emotiva, tumtum à flor da pele, pocotós dentro de mim, a alma por fora, tudo ao contrário. Carne viva no espírito, casca às avessas, multidão que emudece, o sol à meia-noite.
Pra sempre acabou ontem; nunca mais até agora; eternidade começa hoje.
*
Hush

Tá, então combinamos assim.
Eu durmo nesse exato momento, e você me acorda no dia 24.
Pega minha mão e me diz "hush". E aí a gente vai.
Sei lá pra onde, mas a gente vai.
Pode ser um lugar com muita água doce,
pode ser o interior do interior do interior, de mim, de você ou do estado, ou do País.
Que seja interior, por favor.
Um lugar onde tenha muito sol e muita lua. Um infinito de estrelas.
Estrelas nos meus dedos e no teto do nosso quarto que pode ser o céu.
Pedras grandes pra gente deitar em cima e não dormir, mas esquecer.
(Ou lembrar, dependendo do ponto de vista.)
Standards de jazz, muito jazz, por favor, on the rocks.
Purpurina, perfume, pimenta e piscinas. Cavalos à beça.
Ah.
E um ou dois lobos, para nossa proteção.
*
Boa noite.

Desliza

Deslizante. Um pouco insegura, mas afoita, tal guardiã das vontades.
Hoje ela é mais jovem do que ontem, e mais mulher também.
Escolheu a vida, após conhecer o resto e não acreditar nele.
Não é um ser lânguido ou líquido ou lógico.
Mas tem a alma macia como as algas distraídas
Que se enroscam nos dedos de suas mãos, em forma de versos.
*
Deslizante.

Volcano

Eis-me em busca daquilo que de alguma forma foi não perdido porém enterrado tão fundo
que foi até esquecido por algum tempo (não sei dizer quanto), mas enfim esse "aquilo" se lembra
de mim e não se esqueceu de mim e agora me chama pra perto, de novo, e vou, não sei pra onde,
também não me lembro bem a cara do que eu tenho que encontrar, na verdade nem sei se tenho
propriamente que encontrar alguma coisa, e vou cavalogalgando meio que sem rumo mas isso pra
mim agora é ter rumo, foi o rumo que me tomou, de verdade, eu, que desci do cavalo e encostei o ouvido
no trilho do trem e não ouvi nada, mas o trem me ouviu e ouviu meus pocotós e tumtuns; eu, que levantei
meu nariz pro céu e inspirei mas não senti nada e quem sentiu foi o céu o meu cheiro de lobos e cavalos
e então o rumo me tomou, assim, descompassadamente, como um dançarino furioso, pela cintura, e me
colocou romanticamente sobre esse instinto que cavalgo, e me disse, segue, e eu disse, segue o quê?,
e ele disse, apenas segue, mas que mania de achar que todos os verbos são transitivos, e eu destransitivei
e emudeci e estou desde então seguindo.
*
Faz muito pouco tempo que voltei a seguir. Muito pouco, mesmo.
*
Mas enfim agora isso não importa mais. Sigo a vontade encavalada. Ad libitum.
*
E a medida do desejo e da paixão não é a dor que eles causam - é o quanto a gente não quer descer desse cavalo e o tão
pouco que importa o onde, o quando e o porquê. O tanto que importa o transbordo do vulcão.

Lobo

Acho que aquela sensação de não saber bem onde se está ou que horas são,
sensação à qual fui apresentada há pouco tempo e que até me incomodou no
começo mas agora muito me agrada, vem do fato de nossa mente e nosso corpo
e nosso espírito de repente se tornarem um - assim, bum -, e a gente não consegue
sentir nada a não ser o coração tum-tum e o lobo que morde a garganta da gente,
por dentro, e o horário e o dia da semana já não existem mais por simplesmente não
fazerem sentido, e o lobo tum-tum e o coração que morde a garganta por dentro e a
garganta que já não é e o lobo e o coração que são um. O lobo e o coração, um.
*
Ow. Isso vicia.

Talvez

Talvez a única razão pra isso tudo seja
cobrir os teus rastros com os meus.
*
Talvez isso faça toda a diferença.
*
Talvez não.






:: 05 de julho, 2005 ::
DEZEMBRO

Dispair.

O desespero que dispara destemperadamente. Uma brincadeira imbecil com a palavra para poder esconder por um minuto a dor que arrebenta e que não permite brincadeiras. Um instante petrificado, boquiaberto e ensandecido, um instantâneo que a tudo olha e tudo teme mas que não se percebe e que não se vê como um todo. Um dia foi o todo; hoje, apesar de tão arraigado e tão acorrentado ao calcanhar do outro, sua extensão, seu apêndice, é o nada.
Um nada preso a um outro. E o outro parte. E o nada fica. Fica o vazio. Fica o nada.
Dispair.

Raiz

E você estava ali, enraizada. Olhando para o chão, para seus pés, chafurdados na terra firme. Tudo tão firme que nada girava, e já cresciam plantas ao seu redor. E então bum!, e tudo se transformou e transmutou. Sua raça não mudou, você ainda é pedra, não recusa nada, não absorve nada. Mas você já não consegue mais olhar para a o chão nem que tente. Você foi revirada. Agora a única visão que tem é o céu. Olhando pra cima, revirada, meio desesperada. Seus olhos doem e doem e doem e lacrimejam luz. E você fica assim por tanto e tanto tempo e então entende que tem que olhar para o céu porque é de lá que virão as respostas para as perguntas que você jogou para o alto em forma de gritos e medos e angústias e paixões. As respostas, você não sabe como vêm: podem chover, trovejar, iluminar ou nem ser. Mas sabe que elas virão. Chovendo, trovejando, iluminando ou nem sendo, elas virão do mesmo jeito. E cairão sobre seus olhos que nem mais piscam de tão secos pelo sol. E não vai mais dar tempo nem de você dizer "sou pedra, não absorvo", porque quando vir, já absorveu. E vai ser assim. Back home.

Rodin

Manter o gosto aceso sobre a língua, pelo máximo de tempo possível, tentando mostrar para alguém how it tastes like. Mas como mostrar para alguém o gosto de algo do qual nem se sabe o nome, enfim?
Isso vira febre e escalda a garganta.
Lambo meus dedos, então. Não vou guardar meus segredos embaixo da minha língua. Que colem em minhas digitais, então, e um pouco deles possa grudar como glitter em qualquer coisa que eu tocar. Fragmentada, sem dúvida, mas enfim completa por conseguir sair de mim.

Recollect.

RECOLLECT

Meu velho espelho
Desconstruído;
Minha imagem
Fragmentada
Em pedaços cor de chumbo.
Ajoelhada em meio ao vidro
Colho cacos.
Dois ou três reflexos grudados em meu dedo.
Levo-os à boca,
Mastigo-me com gosto
-antropotrágica-,
Absorvo minha essência
E me recompleto.

Ah Deus, e é uma crescência de sentimentos e confusões e barbatanas prateadas de peixes que se debatem em meu estômago e me aflige e me apavora e me chama cada vez mais pra perto e quando eu vejo já não vejo mais nada e um meu calcanhar sendo mordido por um lobo, o outro preso à pedra eterna de minh´alma, minhas mãos que só roçam aquilo que eu devo segurar, mas nem sei o que é porque tudo é úmido e tudo é escuro e gritos-trovão chuveiam em meus ouvidos tal lâminas de aço e corro e corro e corro e saio do lugar?
Crescência, querência. Imensas.
E o lobo que me sangra. E já não é pedra e já nem é perda, é o lobo que me sangra e me urge. E sou eu que confio. Que confio.

Laughlin

No espelho, a estátua. A estátua de pedra, agora olhando em meus olhos. Onde termina a carne, onde começa a pedra? Não sei, não vejo, não sinto. O corte na pedra também produz vermelho, e já nem sei se esquenta. Os olhos da pedra choram quando chove você sobre ela, e ela não se mexe. Ela não pode se mexer, e sequer sabe se quer, pois já não sabe se pode querer. E chove o orvalho dos seus cabelos sobre a boca da estátua que só então descobre que petrificara de sede. E a rosa já não é a rosa posto que nunca foi a rosa, e a estátua só sabe da rosa por causa do espinho grudado em seu dedo. O espinho, ele também, petrificado. E chove você na estátua e a estátua chove em mim e meus olhos se abrem no espanto daquilo que não é dor e não é perda e não é angústia. Aquilo que chamam de rosa rouba o perfume das suas mãos e já não é espinho e o espinho então nunca existiu e o espelho entra em um jogo louco de refletir só a si mesmo e nem de longe e nunca mais a verdade que nem existe e a pedra já foi enterrada.
E sei, e vejo, e sinto. É a carne, é a carne. A carne vermelha que orvalha.

Não-ser

Porque é no vazio de me perder que já posso me encontrar.
É no não ter nada que reside essa conquista.
É na cega libertação que me deixo desvendar.
E é no não ser que já cabe esse "ser tua".

Turbilhão

Como a calmaria pode ser tão rubra? A cor de carmim do silêncio, tudo grita, e já é um turbilhão no meio do qual você já não tem mais nenhum controle sobre nada, e então pensa, controle exatamente para quê, mesmo, o que é que eu queria com controle?, e não dá tempo de você concluir o pensamento porque já está em cima dos cavalos que moram na tua alma mas agora te conduzem e é o corpo sobre a alma e é o lobo mordendo o calcanhar, vai, vai, vai, e não dá nem para olhar para trás porque você não sabe onde é o fim e onde é o começo de absolutamente nada, mas você com certeza NÃO é o centro de nada, e essa é a maior descoberta dos últimos tempos, inclusive talvez nada tenha centro, mas se tiver, o centro NÃO é você, você faz parte deste nada e por isso é tão tragado por ele, e tudo roda, e oroboros, e a serpente que come a própria cauda, a energia retornando à sua fonte primeva, e é tudo tão forte por ser tudo tão fraco, e é tudo tão perene por ser tudo tão simples, e os olhos fechados vêem mais que as aberturas, e o sonho é mais real que qualquer coisa desse mundo.

Redondo, brilhante

Redondo, brilhante. Sou o espelho em que te olhas - e por isso te olho também.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila., segundo Ms. Plath.
A imagem no vidro, o brilho nos olhos, a separação pelo breu ou pela luz. Sem meios-termos.
É em mim que tu mergulhas tua mão, e é de mim que saem os dentes que cravam tua jugular.
Cortinas, rubras. Fecha o pano.
E não se sabe se isso é mágica ou não visto que não se sabe onde eu termino. Ou onde tu começas.

Hoje

Hoje acordei francesa, de olhos negros e cheiro de incenso. Hoje minha cor é carmim, me abano com leques e ouço Vivaldi. Hoje não colho jasmins nas calçadas - eles é que me colhem do nada. Hoje não sei dançar ventre, mas danço flamenco e piso bem forte. Hoje as botas estão encostadas em algum armário do meu peito, e ando de sapatos pesados de dança e faço cloc-cloc-cloc tal um cavalo enfurecido. Hoje acordei francesa.
Mas por favor, não me analise por isso. Amanhã nada disso fará sentido.
De novo. Como hoje já não faz.

Real

Eu disse que não chegaria até amanhã sendo a mesma pessoa que acordei.
Na verdade não tinha acordado de manhã - fui acordada agora.
Acordei pra dentro de um sonho que nunca foi mentira.
Nunca nada foi real.
Na minha vida, nunca nada foi real. Até agora.

Realize.






:: 04 de julho, 2005 ::
La Serenissima

A luz amarela, um mar cor de laranja,
tudo em chamas.
Quem diria, dias atrás, que eu estaria assim -
em meio ao fogo do mundo,
serena, em paz. Em mim.

Piscinas

E quando você se debruça sobre si mesmo percebe que essa paixão
encheu seu peito de piscinas, algumas de água escura, outras não,
para as quais estende seu rosto, nas quais se vê e se banha e mergulha,
mergulha na própria imagem, profunda e prasempremente,
de um jeito que assusta, corrói, delicia, machuca, assopra, cura, salva,
e cada coisa de uma vez, e tudo de uma só vez,
e você não consegue ver mais nada a não ser o reflexo da vontade
de permanecer livre, de permanecer gente, de permanecer feliz.
De permanecer.

Silêncio

Shhhhhhhh...
Não fala mais nada, não fala
Pois que a sua dor já diz
Tudo aquilo que está dentro
Antes mesmo de acordar
Antes de se ver feliz
*
Shhhhhhhh...
Quanto menos se fala, querida,
Tanto mais a dor que arde
Sai da gente e foge e voa
E grita e corre e enlouquece
Escancarando enfim a verdade.
*
Shhhhhhhh...
A dor que não dói arrebenta
E o seu silêncio fundo me cala
Pois então, serenamente,
Ficarei aqui ao seu lado
Ouvindo tudo o que você não fala.

Serena

Serenidade.
Como aprender a palavra
Senão sentindo por dentro?
*
Ser serena. Algo entre tepidez e descanso,
palavra dormente sobre folhas alaranjadas
de cheiro doce e macio.
*
*
Serenos seremos.
Aprendi assim.

Ela

E lhe soltaram as mãos, e tiraram as correntes de seus pés,
e uh! queda livre, agora, e apagaram aquela lâmpada que a
incomodava tanto e lhe fazia arderem os olhos, aquela
maldita lâmpada azul que a transformava em mariposa, se
debatendo contra o vidro que quanto mais a atraía mais a
queimava, isca-viva, alma-morta, e agora lhe deram uma
alma nova, novinha em folha, lavada e passada, e ela está
usando um girassol (gira-gira-gira...) nos cabelos e suas cicatrizes estão
sendo cauterizadas pelo sol e ela uh! não consegue ainda
andar completamente em linha reta, ora, andou em círculos
a vida toda, e agora, sozinha, engatinhar não pode, mas era
isso que queria fazer neste momento, que feio, moça feita, já
de pé, o que é isso, e caminhe, e olhe pra frente, peito estufado,
coluna reta, sorriso no rosto e ahhh, alguém pára o mundo então,
parece que bebi dois copos de cachaça, como andar pra frente
se não sei nem se meus músculos são feitos pra isso?, como não
sentar, como não ter medo, como não parar com tudo agora???
*
*
Já sei como. Dá-me tua mão. Diz que me ama. Diz que és meu.
E me basta. E me basta. E me basta.
*
*
*
Veja! Aquela lá na frente, com uma flor já despetalada nos cabelos... não é ela?

Pocotó

Ele acordou. Ele acordou antes que eu acordasse.
Ele me acordou. Está aqui, olha,
trotando por dentro.
E vocalizando, feroz.
Você está viva, ele diz.
Eu estou viva, eu sinto.
Felizes as pessoas que têm um cavalo morando na alma.

Hotel

Minha proposta é essa.
Deixamos tudo pra trás. Tudo.
Vamos viver a partir de hoje em quartos de hotel.
Porque quartos de hotel não são de ninguém.
E todo mundo é ninguém dentro deles.
*
Quartos de hotel, por si só,
já são preparados para o espetáculo.
Não importa se o hotel é luxuoso ou de beira de estrada.
O que importa é que seus quartos são um palco.
*
Vamos passar no máximo uma semana em cada hotel.
Mais do que isso, ficaríamos íntimos do lugar, o que seria infrutífero,
pois que isso nos castraria e faria com que nos esquecêssemos de quem somos.
*
*
Só podemos ser alguém em algum lugar que seja um nada.

Um

Esse sol convulso, essa luz que cega,
meu sexo pulsando dentro da noite
- ela, não cabendo em si mesma.

E são tão imensas as coisas sonhadas
e tão queridas e tão desejadas que já
quase inexistem, antes mesmo de existirem.

Houvesse um sim.
E seria janeiro, e seria o azul e o laranja e os olhos
fechados, e seria já o sol sincero, e a luz que desbrava,
e teu sexo pulsando dentro de mim
- nós, cabendo um no outro.

Um leão de âmbar, um fio de pipa, lembranças de troncos imensos, sem nome,
sem data, sem tempo ou espaço, tudo isso na ponta dos teus dedos, da tua
língua, na primeira letra do teu nome.
E a imensidão vira essência; é conteúdo, não mais continente.

E não se vê mais nada. Porque agora tudo pulsa.
Tudo cabe. Tudo junto. Tudo dentro.
Tudo um.

V

Mood. In the mood.
É quando a onda se alça e te alcança
e quase te afoga e te vira de ponta-cabeça e quando vês já estás tão tonto de maresia
e a boca tão salgada e o corpo todo torpe e os pulsos enredados por algas
e os olhos ardentes e os peixes te olhando e uma mordida de tubarão no ventre.
Isso se chama Vontade.
*
Com V maiúsculo, por favor. Essa dama merece respeito.

Doença

Estas são minhas opções.
Posso cavar cada vez mais fundo para dentro
de um lugar que não é meu, remodelando
entranhas, dinamitando ossos, usando da argila
(não)divina para criar uma (pseudo)alma.
*
Mas também posso subir no cavalo chucro que
se chama Instinto, sem esperança ou desejo
de amansá-lo.
Soltando suas rédeas, para que ele me leve aonde
quiser, e ficando em pé na sela com um pé só,
vestida de violeta e purpurinas, tal qual
circense desesperada para que
todos a vejam.
*
*
Olha, lá vou eu. Sobre aquele bicho negro,
que brada seus anseios