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:: 25 de outubro, 2005 ::
DEZEMBRO 2004
stivali
Com as pernas sempre entortecidas, cheias de marcas, bruised knees, some scars, yeah, e não é que eu gosto?
Gosto porque tenho marcas, sim, gosto porque entorteço, eu vergo. Eu não quebro, eu estou aqui, olha, olha no espelho - tem reflexo.
Eu reflito, eu reflito. Eu reflito. These boots are made for walking, that´s what they will do.
And keep walking. Ad libitum.
dos sonhos
Quando era pequena, eu sonhava que estava dentro de um elevador inteiro de madeira, com botões enferrujados, e ele nunca abria. O sonho evoluiu, e ao longo da minha vida fui sonhando e sonhando e sonhando a mesma coisa com pequenas variações, até chegar no sonho mais recorrente, que é um elevador que sobe e sobe e sobe e sobe e nunca chega em lugar nenhum, e dá desespero, e eu choro e grito e sei que já passou do meu andar faz tempo e já está no trigésimo andar e eu sei que o prédio em que moro não tem trinta andares.
*
E foi assim com o lobo-mau com que sonhava todas as noites a partir dos meus quatro anos de idade, que depois virou o temível lobisomem, e depois apenas uma sombra de lobo que me olhava do lado de fora da janela quando os relâmpagos iluminavam o quarto.
Assim como continuo sonhando que estou numa sala de aula, e só eu sem sapatos, ou com a roupa molhada, ou com os cabelos tosados.
*
E sempre, sempre, sempre, os bichos - o urso que está me matando e que eu tenho que matar mas não tenho coragem, as focas coloridas que vêm brincar comigo e me jogam sobre moitas cheias de espinhos, os peixes que me devoram e não me deixam nadar, mesmo eu tendo dez medalhas nas costas.
*
E toda noite eu quero matar, também, e mato, e esfolo vivo, e chuto depois de morto. E revivo no dia seguinte, pra de noite matar de novo.
*
E acordo com o coração na boca, sem ar, sentindo a garganta alheia ainda entre meus dedos. Aperta, aperta assim. Não é bicho, pode matar. E até entender de novo onde estou e quem sou eu a culpa já veio - o verdadeiro lobo - e me engoliu inteira. Sem deixar chapeuzinho pra contar história.
Mar negro mar negro mar
Um mar inteiro pra mim, um mar bem escuro e gelado. Um mar pra eu não desvendar assim tão rápido.
Um mar pra me fazer nadar com mais calma, assim, sem praias à vista.
Minhas pernas e meus braços gritam por esforço nessa hora - GIMME HUGE WAVES!
Um mar cheio de sombras para que eu abra meus olhos de novo - chega da ilusão idiota de águas claras.
... E pedras quentes sobre as quais descansar na chegada.
AINDA NOVEMBRO 2004
do que não se sabe
Sem medo, sabe? Você não sabe ainda, mas um dia vai saber.
O medo fica ali petrificado pra quem não olha fixo pra ele, pra quem não consegue chegar perto pra entender suas formas, suas cores.
Ele é enquanto desconhecido; ele está, e depois voa, quando olhado no olho. O olho verde do medo, tão verde que dói.
*
É igual à mariposa-monstro que estava na porta do armário. Ficou lá enquanto eu fechava a porta do quarto e deixava ela dormir sozinha - eu dormindo no quarto ao lado.
Ficou lá. Um dia, dois dias, três, quatro, quatro e meio. Sem se mexer, sem piscar.
*
Até que eu finalmente cheguei perto. Olhei bem a mariposa-monstro e seus olhos tão verdes, e ela nem era mais monstro. Era uma pequena fada preta que tinha pousado ali pra me ensinar alguma coisa.
Foi quando ela sorriu (acho). E foi embora, de uma voada só.
o sonho
Eu estava na praia, estranhamente cheia à noite. Deixei minha bolsa em uma das espreguiçadeiras da areia, fui nadar no mar escuro.
Havia outras pessoas boiando lentamente perto de mim, eu comecei a nadar muito rápido, batendo as pernas com força. Alguém me avisou: nesse mar não se nada rápido.
Tarde demais. Ouço gritos, as pessoas perto de mim (umas cinco) dizendo "fiquem juntos, todos juntos). Da água se alça um peixe imenso, poderia ser um tubarão mas não o era, era apenas um peixe muito muito grande com dentes afiadíssimos. Dou meu braço pra ele morder, penso "eu aguento".
O homem que estava ao meu lado tira de não sei onde uma pequena faca. Fura o peixe, que parece não sentir nem cócegas, tira algo branco de dentro dele, e eu penso "deve ser o timo. Ou o pulmão. Ou algo bem estranho", e o peixe lentamente vai soltando meu braço, e se desintegra na água escura.
*
Ok. Freudianos, é festa em vossa horta.
translação
Seis e quinze, meu olhar-teu sol que se alça à idéia de você
você, campo de trigo, você, os cataclismas, você, a macedônia.
Minhas íris, raios pra te aquecer por doze horas e meia,
você, todo outonos, você, os sete mares, você, a babilônia.
*
Quinze pras sete
Meus olhos se põem por detrás das colinas dos teus ombros.
*
Um Japão que vira Islândia. Teu sol não sai mais daqui.
These boots
Talvez tudo o que tenho de mim caiba mesmo dentro de um par de botas. Isso pode explicar a minha paixão por elas - talvez o conforto quentinho, a sensação de segurança. Mas é mais provável que seja a sensação de finalmente continente que mais me atrai.
*
Dentro das botas, nada além de braços quase que ridiculamente abertos de tão escancarados, tentando absorver um pouco mais de conteúdo para de novo não conseguir sentir dentro de um continente fictício. Irreal. Onírico, quem sabe, lúdico, não-tácito. Um pouco mais de coisinhas pra colocar na caixa mágica de Pandora. Aquela que sempre se esquece de se fechar muito bem, muito bem, e se abre todo começo de noite e se perde tudo de novo - mas ficou alguma coisa, não ficou? Não sei, o medo fecha a caixinha rapidamente e vai dormir sem olhar lá dentro.
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Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe?
Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha.
Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo.
Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso.
Amo até o fim, sempre, incondicionalmente.
Acho que vou ser feliz, aos poucos.
E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.
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Chiara

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