Dolce Vita
:: 28 de maio, 2006 ::
Março 2006

sono

É no sono (ou na falta dele) que eu fico pensando o quanto eu já sabia.
Parece prepotência dizer isso, mas eu sabia, sim.
Sabia nome, tinha vaga noção de sobrenome, mas isso nem vem ao caso.
Não vem a caso o quanto sabia, mas o quanto me alenta fingir que não.
Porque no fingir que não as coisas que vêm são trazidas em caixas coloridas
embrulhadas com laços de fita cor de uva, e a gente sorri e diz "obrigada".
É um Natal que chega mais cedo, é um Papai Noel que você sabe que é seu tio, seu avô, seu cunhado ou coisa que o valha,
E você senta no colo dele e diz "obrigada, Papai Noel", com os olhos marejados, mesmo sabendo quem está por baixo da fantasia.

Pegar a surpresa de surpresa. Essa é a verdadeira festa.






Fevereiro 2006

prayer

O que eu Te peço são sorrisos sem trancas
pois que a primavera dos reis começa agora,
a estação dos mágicos está próxima
e o colorido confuso das multidões vai se dissipando,
tez a tez.

O que eu Te peço é ter sempre à mão
as mãos de quem eu amo e que me ama também,
o sabor da noite que cala em meus ombros
e faz com que me levante, forte, feliz,
e dance outra vez.

Rainha das Abelhas

Eu lembro bem da rainha das abelhas. Era na sala escura que eu lia sobre ela, ao lado da vala com peixes coloridos, de olhos bem saltados. Tinha medo dos peixes e desejava as abelhas. Desejava, ardentemente.

E deixava de lado a música dos amendoins, os desenhos de coelhos, os quartos proibidos em que eu queria entrar quando a dona da casa virava as costas. Deixava tudo de lado para poder viajar nas asas douradas da rainha das abelhas, acompanhada por uma legião de zumzuns pálidos porém fiéis.
*
Acho que a gente não muda nunca.






Janeiro 2006

da janela

da persiana, cheiro de jasmim
e aí se procura e não existe
e qual é a lógica?
não existe lógica alguma
*
sabe quando você opta pela segunda opção
mesmo sem existir a primeira?
então.
that's how it is.
*
porque tenho vontade de pegar um avião e aterrissar lá
onde o verde é verde de verdade e não um monte de verde
tipo... um verde só?
lá mesmo.
*
these boots are made for walking
isso é tão velho mas cada dia mais novo
sabe? o magma que está ali nos termini de todos os lugares.
*
ó. o que eu digo é o seguinte.
vive e vive mesmo.
porque não tem segunda chance.






Dezembro 2005

turning my back

Tanta gente dentro de um armário só. Às vezes eu entro nesse armário pra procurar a roupa do último personagem - e, cansada, acabo dormindo junto a algum par de botas pretas. Não tenho mais idade pra essa brincadeira; não tenho mais vontade, pra falar sério. Prefiro a companhia das minhas doze botas e de todos os tons de cabelos à de muita gente. À da maioria, pra falar a verdade.

*
*
*







Outubro 2005

te digo

eu te digo que as sete horas aterrissaram perfumadas pelas mãos crioulas de uma noite muito quente e sem estrelas.
que assuntos idiotas me incomodam sobremaneira; que assuntos fúteis hoje me aliviam um pouco - meu corpo dói de tão cansado.
a estrada que nos espere nessa sexta-feira.
nossa vontade vai beber o mar inteiro.






Setembro 2005

parole

Para onde vão as palavras?
Já não me interessa mais, porque as palavras não são minhas, e não são ditas para serem ouvidas.
São ditas porque preciso ver a folha branca à minha frente se enegrecer; são ditas porque gosto do som; são ditas porque quero dizer.
*
As palavras que digo às vezes são barcos que levam alguém para outro lugar, e isso me faz regozijar. Mas não dependem de ninguém para sê-los; elas atravessam as águas sem ninguém, às vezes. A necessidade de se ter alguém sendo transportado seria fetichizar as letras e os sons, e palavra nenhuma merece isso.
Não luto contra deuses, não luto contra mim.
Eu, nas sombras ou no sol, com perguntas ou o que eu creio serem respostas, não mais entonteço.
*
Percorro, tranquila, o caminho das palavras, e elas não mais me servem.
Sou eu quem as serve, e assim sobre as longas praias os antigos castelos podem ser destruídos sem constrangimentos.
A impermanência é o que me conforta e é nela que as palavras me descansam.

sobre

Sentir as coisas na pele pra mim já não vale mais nada.
Sentir a matéria na alma é o que assusta e o que afaga.






Agosto 2005

diálogos anunciados

Eu não sei escrever sobre prédios e cidades. Eu não sei, nunca soube. Um dia um escritor me pediu um poema urbano. Eu escrevi um poema sobre um amor que acontecia na cidade. É o máximo que eu consigo chegar quando se trata de mim, de eu escrevendo.
Seria cruel fingir que sei ou que me sinto confortável escrevendo sobre isso. Não me interesso, não entendo, não conheço. Não sou. Se eu folheio um livro, algumas palavras me pescam na hora, dentro da própria livraria, e lá eu decido se levo o livro ou não. Se assisto a um filme, posso não entender o enredo no fim por ter ficado perdida nas expressões faciais dos atores, tentando entender por que a atriz abriu a boca num meio-sorriso quando disse "eu sei", no meio do tiroteio. E ao sair do cinema, vou perguntar pra você "Mas por que aquele homem morreu?", mesmo que "aquele homem" tenha sido o vilão do filme o tempo inteiro.
Não digo que o que me interessa sejam coisas "boas", é muito além (ou aquém) disso - mesmo porque adoro coisas que me façam rir muito e não me deixem pensar um segundo; realmente não é isso. Não passa por esse tipo de julgamento. Tem a ver com o que eu reconheço, com aquilo com que eu posso manter contato e estabelecer um mínimo diálogo.
Não sei porque não sou. E creio já estar velha demais para começar a ser, nessa altura da vida.







Julho 2005

volontà

As vontades severas.
Vontades dóceis, sim, reluzentemente alegres até.
Mas pétreas. Um teor de desejo que só aumenta, que une.
Que não desagrega.
Vontades em forma de lanças e nunca de escudos.
Que se batem e se moem e se arrancam para se lançarem de novo.
É esse tipo de vontade que me acende.
É esse o tipo de paixão que eu conheço.
E nenhum outro.

E é no teu peito que eu fecho os olhos e me carrego, a mim mesma, para longe dessa terra sem estrelas. E é no teu peito, amor, que viro pedra novamente.
Petra, meu nome. Diz baixinho. E dorme agora.

o silêncio das ovelhas

As coisas são amarelas e vermelhas e laranjas, estes dias, um turbilhão que me tira do foco, dentro de mim
Mas é muita coisa, é coisa demais às vezes, é coisa demais - o lilás vem mas não tem mais espaço pra ele, não tem espaço porque já está tudo tomado.
Eu queria mesmo era um pouco de silêncio. Não, eu queria mesmo era um dia inteiro do mais puro silêncio, do mais puro deles
O silêncio mais puro dos silêncios, dos silêncios, de todos os tipos de silêncios que já existiram nesse mundo, do silêncio mais puro do mundo da Turquia, do silêncio turco -
aquele que fez com que a primeira ovelha pulasse do penhasco
Não que eu fosse pular. Eu não pularia, jamais (hoje não)
Mas o ímpeto, sabe? O ímpeto. O ímpeto da primeira ovelha.
E o amortecimento das outras.
Era isso o que eu queria.
O silêncio impetuoso, lilás, turco. O silêncio da primeira ovelha.
Hoje.

fim-de-semana

um pouco mais de quarenta e oito horas de muito verde. de vários tons. tantos tons de deixar tonta a mais centrada das pessoas. não é o meu caso, o que já diz muito sobre como eu fiquei. tantos cheiros, eu me lembro de ter dito "o cheiro do eucalipto misturado com o do musgo e o dos cavalos me dói os ossos do rosto". muito sol de arder na pele, muita água em vários lagos, todos turvos de chuva.
*
e o pêlo do cavalo branco, o cavalo branco que arfava e olhava para os portões por onde passava, para o cachorro preto que latia, para o bar que ostentava a placa onde tinha escrito "Tulbaína", assim, com "L", para as pedras da estrada embaixo da gente, para a baia para onde voltamos a galope, ele olhava para tudo, ele, o cavalo branco, que foi meus olhos por uma hora, ele que foi meus olhos, minhas pernas, meus ouvidos, minha vida inteira ali, por uma hora.
por uma hora eu fui um cavalo branco.
e meu nome era Drago.






Junho 2005

nós

O teu eu em cuja sombra durmo às vezes
- sobre ele, o quê?
Se enrosca em abraços nas crateras que cavei e que molho, dia após dia
- e de onde vez em quando vem um perfume de flor branca.
*
O meu você, aquele que não aparece no espelho
- sob ele, o quê?
Se abstrai em existires transparentes que toco, banho e cuido
- e pr' onde vão a cada noite os mais suaves pensamentos.

relato

Olha. É muito mais do que posso te explicar. Na verdade é muito mais do que posso compreender e é isso o que atabalhoa tudo.
Quando não penso, eu sinto, e explode tudo em febres e câimbras e coisas todas na pele e no corpo. E a resposta pra isso quase sempre é um abraço.
Não são pílulas ou remedinhos que vêm em potinhos que podem conter a resposta pra toda uma existência. Às vezes, um abraço pode.
E emoções são emoções, pura e simplesmente. Não são boas ou ruins, são elas. São. E quando não podem entrar rotuladinhas na minha cabeça, cavam seu caminho pra fora do meu corpo, explodem, purgam, doem, salivam. Vivem. Vivem em carne.
E é só isso. Nada de mais, enfim. É só um corpo a mais, sentindo uma emoção a mais, doendo um pouco e vivendo até a hora em que acabar.
Como todos os outros.

sobre o tempo

Sobre o tempo não há mais o que se falar. De tão absurdamente relativo, subjetiva até você. Não digo mais nada.
Se relativizo alguma coisa, eu mesma, relativizo engrandecendo. Tudo que passa por mim é magnificado, minha alma é um telescópio.
Nebulosas viram astros de primeira grandeza e fecho os olhos na tentativa de enlutá-las. A noite que não vem em mim.
Hades conheci de vista. De romã eu conheço o gosto. Comi muitos, desci escadas, enluarando sem anoitecer.
Ainda cuspo pedaços aqui e ali. Mas Persefone voa, por sobre a lua e pra dentro dela. Mesmo tendo de fechar os olhos, vez em quando, para não tomá-la pelo sol.

English Lesson

So excuse me forgetting but these things I really do
You see, I forgot if they´re green or blue
Anyway, the thing is, what I really mean
Yours are the sweetest eyes I´ve ever seen.
(Elton John)

Não existe to excuse, não existe mais. Não existe to forget, não mais, também. Porque to excuse já não tem razão de ser; to forget não há porque não é bem esse o caso - o caso agora é to remember the important thing.The important thing agora é to love.
To love is to love is to love. To love is to love. To love is.
E se não é, não é to love.
É outra coisa. É to forget. É to excuse.
*
E se o amor do verbo to love é um amor endless, então faz sentido que ele também não tenha tido começo. Se é atemporal, o é para o fim e para o começo. Por isso não sei de datas. Por isso não é to forget, é not to know.
E isso faz toda a diferença.
*
E por isso esse post is meaningless.
E por isso tudo isso has no reason why.
Because the greatest thing you´ll ever learn is to love and be loved in return.

Hoje

Hoje eu mergulharia em um sonho que me permitisse uma réstia de essência. Algo que lembrasse o jasmim, algo que inebriasse a questão dos dias, das concretudes, de tudo aquilo que eu não entendo e que por isso mesmo me irrita tanto que me dá vontade de me despir da pele e andar de alma nua.
Um tanto que acariciasse, um tanto que arrepiasse, um tanto que abalroasse e mesmo assim me conduzisse, um tanto que me preenchesse e um outro tanto que me atordoasse, assim seria um dia, dois, talvez uns tantos.
Eu sei que cura, eu sei que passa, eu sei que isso faz com que até de nome eu mude, que eu me descasque, que eu me revista, que eu revisite a mim e a todos os outros eus.
Hoje eu seria eu.







Maio 2005

grammar girl


Seus olhos circunflexos. Conhecia olhos antônimos, olhos átonos (muitos), mas circunflexos, nunca. Você, que não é sinônimo de nenhum outro sujeito; você que em mim é vocativo, hipérbole e metonímia.
Eu que lhe sou texto, texto, texto, escandida verso a verso.
Digo que o livro está aí pra quem quiser ler. Mas poucos sabem; essa é a verdade. E digo que o futuro do presente está nestas muitas páginas já escritas.
Você sabe disso tão bem quanto eu.


sonho


... porque a vida é feita de pequenas mortes, Valente. Se não houvesse pequenas mortes, não seria a vida. A vida não é um placebo. Ela é carne, sangue, poesia, pensamentos. A vida dói. A morte não dói.
A vida não é o beijo de olhos castanhos aos meus catorze anos de idade. Ela é o cavalo baio que me levou até lá.
A vida não é o teu último dia vivo, Valente. Ela é a tua luta incessante contra tudo que te ameaça, contra todos que não te valem.
O risco de morrer a gente corre todos os dias. É de viver que a gente se esconde pouco a pouco, atrás de vidraças, mármores, pedras. É de viver que se tem medo.






Abril 2005

volcano


das coisas de que mais me lembro são o seu cheiro, a cor dos seus olhos, o tamanho das suas mãos e a textura dos seus cabelos. e são tão infrequentes e ao mesmo tempo tão presentes, não pergunte o porquê porque não tem razão nenhuma. só estão, como sempre estiveram de uma maneira sublinear, subliminar até. a gente fecha os olhos e finge que não está lá, que não existe.
é o que estou fazendo agora, forçosamente. a poesia que cisma em vir, e eu me deito no edredom e aborto toda ela, toda a poesia e todos os pensamentos. porque não dá pra viver nem com a lembrança nem com a esperança da poesia. viver, agora, só com o que existe de verdade, aqui, na mão, na boca, no espaço físico à minha frente.

sopra

teus risos outonais, teus olhos de rio.
as coisas que se enroscam em meus pensamentos e descem para meus cabelos em forma de cores. todas.
caminhos em curvas, contrastes em tabernas, sussurros em dó.
o que permanece e o que amalgama, como te falei um dia, antes de tudo cair. eu estava certa antes de estar errada, e olha lá no céu aquele que anuncia. porque é certo que sim, porque é certo que vem. porque é certo que há.
se eu soubesse da finitude de tudo como sei agora, aqui, na ponta dos dedos, talvez pudesse não ter sido, mas não podia porque eu ainda não era, e agora sou. nem estava; agora sou.
não existe mais morrer de amor porque já morri várias vezes e agora não morro mais. já precisei morrer, pular de pontes, cortar três dedos, tomar cicuta, mas agora não mais.
as coisas não mais explodem. ardem, mas não inflamam. dóem mas não assassinam, e empurram pra vida e não pro outro lado.
pra teus risos outonais. pra teus olhos de rio.

sobre amores


que amores terminam?
*
não terminam. continuam no peito que segura o soluço, nas risadas de pérolas, nas lembranças de viagens incontidas e risonhamente trágicas. eles continuam no abraço do corredor triste, nos perdões esparramados no pavimento cinza, nas mãos-dadas-como-se-foram os corrimãos de escadas vermelhamente ultrapassadas.
*
ultrapassamos soluços, risadas, lembranças, abraços, perdões, mãos-dadas, escadas.
o amor, não ultrapassamos.
e ele também não nos ultrapassa.
*
credimi. perchè il tempo esiste, e se esiste il tempo, io sono qui.

dá licença um segundo?


então é isso, casa nova, abençoada, tudo lilás + laranja + amarelo + verde limão, noites no futon, coração dodói ainda, vontade de ligar e cantar "do I have to climb the highest mountains to make you love me back?" e esperar ele dizer "no, I love you back and let´s stay together forever", mas não vou ligar porque não dá mais, já fiz o meu possível e o impossível lateja aqui nos dedos, sabe, ele sabe, acho que todo mundo no mundo já sabe, a espera sempre cansa, dói, chateia, dá lagriminhas no canto do olho na fila do banco, mas minhas amigas me fazem companhia e me fazem esquecer disso por umas duas ou três horas por dia, à noite não, porque o futon lilás chama sonhos e sonhos sempre me acordam, por dentro e por fora, e flores recebidas ontem de um menino muito fofo, minha casa está bem florida, as velas de baunilha da tatoca também perfumam, bem como os sabonetinhos-de-coração da soulitcha, querida, será que se eu lavar meu coração com esses sabonetinhos sai a dor? diz que sai. diz que sai.
...e proprio io che ti amo ti sto implorando aiutami a distruggerti...


quem me conhece sabe...

... que minha vida saiu de um roteiro de almodóvar.
mas eu digo, agora: enfiaram um capítulo de nelson rodrigues no meio.


paginada


Tantas páginas em tão poucos dias. No espelho, olha lá, milhões de mim. Vês? Depois da ameaça de chuva, choveu tanto. O barulho da chuva passou, veio o dos trens, clecleque, clecleque, a cada meia hora. O que vai nos trens, não sei; da chuva, sei um pouco. Mas quase nada, a esta hora.
Minha mão na tua carne é bem diferente da minha mão na tua alma. E não sei mais se quero os começos ou os fins. Quero com certeza todos os meios, os meios que me levam, os meios trens-de-carga.
E é tua beleza na vitrine, no espelho, no trem, no barulho. A tua beleza que dá vontade de chorar, a tua beleza que fui eu quem desenhou. A porosidade de tudo o que não é belo, tudo aquilo que começa a diluir na minha frente, e eu não sei se eu quero que dilua.
A minha inconstância toda, ameaçada por ti. Porque "pedra nunca mais", eu disse. E olha só, minha cara de espanto no espelho.
Clecleque, faz o trem. Shame on me.






Março 2005

paisagem


Esta é a nova paisagem da minha nova janela.
Que sejam torres, que sejam fortes, que sejam minhas. Que minha história se entrelace com a delas, que o trem que corre ali embaixo leve meus sonhos pra onde eu quero que eles vão.
E que caia do céu a chuva que tanto espero, há tanto tempo, as palavras em forma de chuva, os sentimentos em forma de chuva. As torres, o trem, eu. Em forma de chuva. Pra sempre. Amém.

Cotidianamente

Você chega. Você decora a sutil vida do tempo, que se esparramou à sua frente uma vez. Você olha.
E é tudo mais forte que você: as cores, os ventos, os anjos. Os anjos que vêm e sorriem pra você - você ri deles?
O sono que bate à porta e traz aquele azul que apaga todo o resto do seu mundo. E no seio da tranquilidade desse azul você se permite deitar-se um pouco, inspirando e expirando, inspirando e expirando.
E a lição que você aprende todos os dias é aquela que lhe convém.
Porque tudo sempre foi assim e sempre vai ser.
*


Seu Gaspar


Seu Gaspar é um senhor de idade. Ele é muito grande, já foi muito forte. Hoje sua força se concentra na mão que segura a bengala de madeira.
Ele mora no prédio em que moro. Mas todo fim de tarde ele está na sapataria da esquina. Um dia eu lhe perguntei se ele era dono da sapataria, e ele me respondeu que não. "De tarde eu fico nesta sapataria vendo o dono trabalhar; de manhã eu fico na outra sapataria, de outro dono, na outra rua, porque o sol bate na primeira. Eu busco a sombra".
Às oito horas da manhã, Seu Gaspar desce e fica uns quinze minutos na portaria. Pra todo mundo que passa, ele diz a mesma frase: "Bom dia, você tá bom (pode ser homem ou mulher, é sempre 'bom')? Na luta?". A minha impressão é que ele não ouve a resposta.
O cheiro do Seu Gaspar também é uma coisa à parte. É um cheiro forte, não exatamente ruim. Forte. Eu sempre penso que é cheiro de morte. O cheiro do Seu Gaspar é cheiro de morte, mas não sei por quê.
Imagino o Seu Gaspar novinho. Ele devia ser atleta, acho. É muito grande, braços fortes. Mas cadê toda a força dele?
Acho que o Seu Gaspar guarda a força dele na caixinha de óculos que repousa em seu criado-mudo. Deve estar ali, na luta, ela também.
Ele bem deve guardar coisinhas aqui e acolá. A força, no móvel. Uma risada, talvez na ponta da bengala. E tenho certeza de que ele tem um pouco de cor-de-laranja no bolso da camisa, junto com um lenço e talvez algum número de telefone.
O cor-de-laranja, ele também, buscando a sombra. No ocaso da vida do Seu Gaspar.

sobre como é fácil e difícil ao mesmo tempo


Porque no sábado eu senti uma coisa engraçada, sabe. Sabe como é quando você anda de bicicleta vinte anos depois de ter andado e caído, da última vez? Você esquece da bicicleta até subir nela de novo. E foi assim que eu senti uma felicidade boba e simples e não entendi direito que era isso, só felicidade. Mas pensando, de volta, enquanto dirigia na Marginal, eu vi que era só felicidade, e fui ficando cada vez mais feliz.
É lógico que essa felicidade não ia durar pra sempre, mas só o fato de poder senti-la de novo, não aquela alegria poodle, desesperada e faminta, mas o quentinho da alegria tranquila, já me deixou plena.
Foi bem no domingo que ouvi músicas que me lembraram de coisas boas e tristes ao mesmo tempo. Chorei um pouquinho e resolvi mudar de estação, pra esquecer. Porque é isso mesmo, a gente sintoniza um pouco a estação certa na nossa cabeça, né, pra ficar feliz. E a gente precisa querer ficar feliz.
E então eu pensei que acho que o touro que me arrasta pra cá e pra lá há quase três anos já foi embora, já cansou de mim. Eu agora tenho uma bicicleta e pronto, estou mais livre e menos bruised, e pronta pra segundas chances/tentativas/whatever.
E rá!, o destino, que tenho certeza que tem uma franquia com meu nome e a chamada publicitária "ironias aqui!" vem e me apronta outra. Vem numas de conversa, e me conta coisas que insistem em sintonizar minha cabeça na rádio de músicas tristes. E puxa, que segundas chances/tentativas/whatever que nada. Eu tenho de vez em quando é uma eterna segunda-feira sentada numa nuvem em cima da minha cabeça.
De vez em quando, só. Mas hoje sim, e vou dormir mais cedo e tentar sonhar com aquele tempo em que o touro nem existia e a bicicleta ainda era azul daquela cor que se eu explicar você vai saber que eu estou falando de você. Então não vou explicar, não.






Fevereiro 2005

Sobre hoje

"Tira-me daqui", acho que estas foram as palavras mais constantemente ditas na minha vida. E adiantou de quê? Ninguém me tirou, mas eu mesma me tirei tantas vezes, eu mesma, nascendo comigo, jantando comigo, casando comigo mesma, e olha só, estou no mesmo lugar.
Palavras, apenas, estou no mesmo lugar, o lugar onde eu comecei tudo. Comecei? Tudo?
Ah, tudo meio cinza e meio laranja, eu que não suporto meios-termos, eu, a mulher dos extremos, não é mesmo? Você sempre me disse isso, você-você-sabe-quem, eu, a mulher dos oito ou oitenta, aqui, ainda. E você lá, acolá, talvez.
O cheiro, beibe. O cheiro está aqui, agora é com um outro você com quem falo. Você com o cheiro e a risada boa; você que olha e olha de verdade; você que se alça e se lança.
Ou eu me lanço com você, ou eu aprendo a amar o aqui.
Nem um nem outro? Os dois?
Não sei de mais nada, nem sei da querência, nem sei de mim mesma.
Assim seja, amém.

Just a little lamb who´s...

Porque hoje nada que eu fale traduz os gritos daqui de dentro.
Posso afirmar que não conheci raiva por 33 anos e meio.
Ela calça um sapato só e dá pra ver o rabo preto arrastando por baixo do colete.
De qualquer jeito, eu cantaria agora Someone to watch over me, só pra ver se eu acredito de novo.
Mas duvido.


Vita Chiara

Mamma te falou, principessa mia. Espera. Espera que puxa, no final tudo dá certo, quando o amor de verdade está aí.
E você, mocinha linda, minha mocinha, esperou. Esperou, esperou, em alguns dias até chorou um pouquinho. Mas esperou como uma principessa de verdade faz, sabe.
E olha só. Papai do Céu que te ama tanto (ah, Chiara, como Ele te ama) sorriu de ver você esperar tão bonitinha. E abriu os braços pra você. E pra mim. E abriu o sorriso pra você. E pra mim. E iluminou a nossa estrada.
Vem, filhota. Me dá um abraço como só você pode dar. Aquele abraço com gosto de Sol que você guarda ali, embaixo dos teus sonhos com princesas, barbies e cachorrinhos bonzinhos.
É só o começo da nossa vida.
Te amo pra sempre. Pra sempre. E mais um dia.
Mamma.

(sem nome)
Que eu sou gota de mercúrio,
dividida,
desmanchada pelo chão...
(C.Meireles)

Tua mão esquerda pousada na minha fronte, certa, forte,
Fechando meus olhos pra tudo o que não há
Tua boca que murmura palavras desconhecidas
E que eu entendo - todas. E já.

Suave declínio de tantos impérios, assim, areia
Que cai em grãos por entre os dedos
E é tudo tão frágil e é tudo tão branco
E é tudo tão muito que cega e incendeia

Fecha a janela, agora, escurece
Pois que nada nesta noite pode enluarar agora
O sol que tenho dentro do peito - eu arranco
E ponho em tua mão esquerda. (A lua cresce, lá fora.)






:: 27 de maio, 2006 ::
Janeiro 2005

e então é o seguinte


O que mais eu posso dizer além de que eu cheguei agora de férias do hotel e cheguei bronzeada, veja só, e aí então eu muito fui pro karaoke e muito cantei tua toda tua você me enlouquece e depois cantei que sooner or later you gonna be mine mas enfim eu nem acredito em nada disso porque não acredito em destino mas as palavras das músicas muito me cortam o coração e entram e sangram e caramba me rasgam e eu choro e já é tarde e eu aqui em lágrimas por causa de todas as letras que cantei e dancei junto e juro! as pessoas muito aplaudiram e sei que podia dançar e cantar e amar e não não posso porque as pessoas que eu quero que me vejam muito não me vêem e puxa então dessa vida pra próxima e é só um ensaio-monstro e haha, o menino ligou o carro preto e foi embora pra casa (dele) e estou com talvez quatro ou cinco filmes (de medo) pra ver e continuo aqui, oi pc, oras bolas, é hora de dormir, o que é que eu faço aqui escrevendo? me responde, alguém, me responde? alguém...
abraçar meus schnauzers e ver se resolvo a teoria da relatividade de novo.
boa noite.

True Colors

E aí que pintei minhas unhas de esmalte AMEIXA e meus cabelos de VIOLETA INTENSO e meus problemas todos acabaram.
*
Joguei tudo no palco do karaokê ontem, no meio da nuvem de gelo-seco.
E isso é muito sério.
*
Começam as verdades hoje.

meteorologia e algumas previsões

E enquanto eu olho pra cima e vejo o céu absolutamente cinza, aqui dentro de mim nuvens esparsas no decorrer do período vêm e vão.
*
Assopra assopra que eu quero muito que elas vão embora. Quero as borboletas de volta no meu estômago, assim, meio que urgente.
*
Enquanto isso, procuro apartamento pra comprar. E também tomo coca light com laranja e muito gelo, canto alto alguma música da Cyndi Lauper e durmo bastante e bem.
*
To love and be loved in return, the greatest thing you´ll ever learn.

da mente e da carne
(com base em um post de Ernesto Diniz)


Porque o amor é sim um pedaço de vida eterna, mesmo sendo o orgasmo alguns segundos de morte. Se do amor se vive, do sexo se sobrevive, se ressuscita. E os dois assim misturados fazem da vida a roda da fortuna, o lá-e-cá, o sim-e-não, a dicotomia assim impressa em lábios peitos mentes. É o retrato do dia-a-dia, o espelho do todo-dia ali, na carne e na alma, pra lembrar o tempo todo que tudo muda o tempo todo.
Tuda muda o tempo todo. E isso eu sinto bom.

senti il rumore

Ouve, ouve o barulho das paredes caindo.
Os tijolos agora aparentes pintam tudo de vermelho, olha.
Que tinta toda era aquela?
Toda aquela construção nada mais foi do que um brinquedo.
Um jogo de a(r)mar.






Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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