Dolce Vita
:: 26 de dezembro, 2006 ::
ABRIL/2005

volcano


das coisas de que mais me lembro são o seu cheiro, a cor dos seus olhos, o tamanho das suas mãos e a textura dos seus cabelos. e são tão infrequentes e ao mesmo tempo tão presentes, não pergunte o porquê porque não tem razão nenhuma. só estão, como sempre estiveram de uma maneira sublinear, subliminar até. a gente fecha os olhos e finge que não está lá, que não existe.
é o que estou fazendo agora, forçosamente. a poesia que cisma em vir, e eu me deito no edredom e aborto toda ela, toda a poesia e todos os pensamentos. porque não dá pra viver nem com a lembrança nem com a esperança da poesia. viver, agora, só com o que existe de verdade, aqui, na mão, na boca, no espaço físico à minha frente.

sopra


teus risos outonais, teus olhos de rio.
as coisas que se enroscam em meus pensamentos e descem para meus cabelos em forma de cores. todas.
caminhos em curvas, contrastes em tabernas, sussurros em dó.
o que permanece e o que amalgama, como te falei um dia, antes de tudo cair. eu estava certa antes de estar errada, e olha lá no céu aquele que anuncia. porque é certo que sim, porque é certo que vem. porque é certo que há.
se eu soubesse da finitude de tudo como sei agora, aqui, na ponta dos dedos, talvez pudesse não ter sido, mas não podia porque eu ainda não era, e agora sou. nem estava; agora sou.
não existe mais morrer de amor porque já morri várias vezes e agora não morro mais. já precisei morrer, pular de pontes, cortar três dedos, tomar cicuta, mas agora não mais.
as coisas não mais explodem. ardem, mas não inflamam. dóem mas não assassinam, e empurram pra vida e não pro outro lado.
pra teus risos outonais. pra teus olhos de rio.

sobre amores


que amores terminam?
*
não terminam. continuam no peito que segura o soluço, nas risadas de pérolas, nas lembranças de viagens incontidas e risonhamente trágicas. eles continuam no abraço do corredor triste, nos perdões esparramados no pavimento cinza, nas mãos-dadas-como-se-foram os corrimãos de escadas vermelhamente ultrapassadas.
*
ultrapassamos soluços, risadas, lembranças, abraços, perdões, mãos-dadas, escadas.
o amor, não ultrapassamos.
e ele também não nos ultrapassa.
*
credimi. perchè il tempo esiste, e se esiste il tempo, io sono qui.






Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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